Há mais de um século Nietzsche descreveu o homem
institucional como um ser lamentável, amarrado nos múltiplos conceitos por ele
mesmo criados. O homem havia criado suas próprias crenças. Mas as gerações
sobrepuseram-se e não guardaram a memória dos fatos que induziram a essas
crenças. O homem perdia tempo e energia vital enredando-se cada vez mais no
emaranhado das histórias que contava-se como
justificativas às suas mais absurdas atitudes.
Aquele era um instante de luta verdadeira da
humanidade consigo mesma, ou de Nietzsche contra a humanidade. E a humanidade
já era, nessa época, um totem bem armado e protegido contra as investidas da
Natureza. A Natureza sempre foi mestra pertinaz e eficiente, mas agora o homem
só queria saber de ensinar a si e sobre si mesmo!
A vida de Nietzsche foi um período de desnudamento,
em que se propunha um olhar novo sobre a sólida estrutura humana. O olhar da
verdade destituído das paixões que nos açoitam e cegam. Porém a armadura dos
conceitos, crenças, bordões, dogmas, vícios e toda a parafernália que os homens
haviam inventado com o propósito de apresentar como heróica a aleatória façanha
de estar vivos, era um impedimento concreto e poderoso contra o olhar límpido
que o filósofo lhes lançava. Décadas afora, continuamos deslumbrados com a
nossa impressionante capacidade de criar artifícios que enobrecem este curto
período de passagem pela vida, e a vida verdadeira deixamos a cargo do homem do
futuro.
Mesmo nos mais avançados centros de inteligência
cultiva-se esse erro primário, que deveria ter sido reparado ao tempo de sua
descoberta: o de que o homem é o ser que ele próprio instituiu; o de que nossas
múltiplas máscaras são o retrato de um ser constantemente enganado; o de que
jamais encontraremos transcendência no teatro diário, nas peças que nos
pregamos continuamente com o objetivo de tornar válido perante a razão o
corolário das nossas crenças.
Nietzsche foi tomado como um destruidor e alguns
usufruíram com apetite o caldo grosso e denso de suas destruições. Mas poucos
entenderam que se tratava da construção de uma nova e mais sólida estrutura
mental, que poderia nos conduzir àquele estado de alma como um instante de
grande ventura, a ventura de uma conquista: valeu a pena atravessar tantos
mares turbulentos para vermos a humanidade livre, sim, livre e pronta para
viver o seu apogeu!
Nietzsche poderia ter sido aquele necessário
hormônio que nos faz passar da fase orgânica da adolescência para uma jovem
maturidade. Poderíamos ter visto, um século atrás, que uma sociedade baseada em
crendices e mentiras estava fadada ao fracasso. Porém, quando muito, seus
contemporâneos e os acadêmicos de gerações futuras sentiram admiração ou inveja
pelo talento do filósofo, que pela primeira vez mostrava qual era a verdadeira
cor dos nossos ossos. Mas não houve um grande grupo de pessoas capaz de se
reunir em torno dessa idéia, desse hormônio, num projeto de construção desse
“homem novo”.
O sintoma mais contundente do fracasso de Nietzsche
— ao menos, até o presente instante — está no fato de que nos quatro cantos da
Terra, seja nos lares, nas escolas, nas igrejas ou no mercado, continuamos
executando o mesmo “programa”, cantando a mesma ladainha laudatória dos heróis,
contando-nos as mesmas mentiras, promovendo as mesmas violações, exprimindo a
mesma ignorância dos contemporâneos do filósofo. Somente porque ainda somos
fracos e imaturos, mantemos um discurso de força e sucesso sobre as iniciativas
que corroboram a nossa histórica angústia: o fracasso de nos vermos obrigados a
continuamente buscar o que, a cada instante e lugar, é o dogma da atualidade,
da modernidade e do sucesso.
Você não pode vencer uma batalha sem luta, mas a
luta que temos ainda é pela glória, não pela verdade. O mundo é bruto e os propósitos
são incertos. Não há entre os mercadores de idéias, entre os arautos da nova
liberdade, senão instruções para manter o rebanho dentro do cercado. Dizem
“sigam por aqui e por ali e encontrarão vales, rios e oásis”, porém não
mencionam que além dos limites que alçamos existe um mundo completamente
diverso, no qual os elementos que temos agora serão objeto de riso e piedade.
Os filósofos do futuro haverão de nos ensinar a mansidão, antes que o frenesi,
mas é possível que os da atualidade não saibam o que é isso!
Uma breve análise das nossas ações cotidianas
mostra como nos tornamos um bando de animais loucos, porém pacificados dentro
de cárceres sutis. Basta nos afastarmos umas poucas décadas rumo ao passado, e
lançarmos um breve olhar sobre o nosso comportamento atual, e veremos o quanto
somos capazes de nos adaptar ao conjunto de novas regras que nos ditam, por
mais absurdas que sejam, mesmo aquelas que machucam os nossos mais profundos
sentimentos.
Quando explodem revoltas na Europa ou nas ruas de
São Paulo, dizemos, assombrados, que estamos assistindo a um bando de bandidos
depredadores. Porém numa análise mais profunda estaremos vendo os braços de uma
humanidade presa, humilhada, sufocada e agonizante tentando livrar-se das
correntes, e isso nunca foi uma coisa boa de se ver. Por baixo da sólida
armadura do homem conceitual, que se enfeita em brilhos, medalhas e troféus,
está o homem natural, com seus músculos vermelhos, sangrentos e doloridos. Ele
precisa sair, e sairá, ainda que o último portal se veja perdido no nevoeiro
dos séculos.
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