sábado, 31 de outubro de 2009

CAÇADA DE MORCEGOS

Chegava a noite, quando as sombras se sobrepunham às cores e já nada se via no terreiro da casa da Nona Guil. Eu e meu irmão Dimas amarrávamos pedras em longos fios de barbante e começávamos a girar em torno de nossos corpos. O silvo característico de barbante cortando os ares era o chamariz dos morcegos. Feria seus ouvidos, seu radar apurado, então ouvíamos seus trinados esvoaçantes em torno de nós, suas sombras apareciam rapidamente contra o céu estrelado, e sentíamos aqueles baques nos barbantes, os guinchos dos animais abatidos. Alguns se recuperavam e alçavam vôo, retornando humilhados às suas cavernas, porém muitos não resistiam, estavam feito manchas pretas sobre o solo marrom na manhã seguinte, quando acordávamos bem cedo para contá-los. Nosso tio Casemiro, caçador exímio quando garoto, enquanto enlaçava os cavalos nos ariames e se preparava para partir de carroça rumo ao milharal, olhava nosso entusiasmo e mentia que aqueles "morcegos do diacho" nunca mais chupariam o sangue de suas vacas. Somente anos depois ficamos sabendo que os pobres mamíferos voadores viviam da coleta de néctar das flores, feito abelhas, feito beija-flores.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DILIGÊNCIAS MODERNAS

Se você é proprietário de uma frota desses ônibus intermunicipais superconfortáveis, eu o convido para uma viagem de duas ou três horas numa dessas maravilhas, para que você possa desfrutá-la pessoalmente.

Nesses dias frios você terá a oportunidade de entrar no veículo lotado, vindo da cidade vizinha, e sentirá com grande prazer aquele bafo quente dos passageiros. Está ali o verdadeiro significado do calor humano. As largas vidraças panorâmicas estão embaçadas com o hálito úmido dos companheiros de viagem, que se mistura ao aroma delicioso que vem lá da privada. Completando o coquetel aromático, um quê de naftalina, que procede de algum local inespecífico, e a bergamota, o almíscar e o sândalo vencidos misturados a várias nuances de suor antigo. Aquele ar gostoso fica circulando de narina em narina. Ao longo da viagem elas vão trocando vírus e outras substâncias ativas e benéficas à saúde, tornando a atmosfera cada vez mais densa, até que, vencido pela rarefação do oxigênio, você dorme e sonha que acabou de estourar uma bomba atômica.

Também há aquelas tardes de calor, em que a gente entra no ônibus de camiseta, senta-se e dorme. Enquanto sonha que está fazendo turismo no lixão municipal, o ar condicionado vai extraindo o calor ambiente, vai circulando a fedentina de sempre, e quando você acorda parece que está na Patagônia, gelado, o nariz coçando, preparando-se para a gripe do dia seguinte. Enquanto isso, duas ou três crianças, nauseadas com a fragrância de rosas do veículo, já estão enchendo os pacotes, ou o corredor — quando não dá tempo de vomitar nos pacotes, e aí está feito o clima para a viagem no ônibus superconfortável da sua companhia supermoderna.

Obviamente, você dorme só depois que o filme acaba. Porque nos ônibus supermodernos tem TV e filme de serial killer, para que todas as crianças viajantes possam entender desde cedo de que madeira são feitos os adultos. Isso quando não é filme de terror, para as crianças perderem bem cedo o medo das pegajosas criaturas do Além. Você pode estar cansado e aborrecido, querendo tirar uma soneca antes de chegar ao destino, mas a telinha está instalada bem à sua frente, espalhando cultura americana, mostrando o quanto o herói do FBI é competente cortando o fio azul sempre no último instante para impedir que a bomba estoure no coração de Nova York. O mocinho beija a mocinha, toca a música romântica e você tenta respirar aliviado, mas não dá. Só se botar o nariz por dentro da camiseta.

Perceba, amigo empresário, como tudo ficou mais emocionante com toda essa tecnologia. E ainda tem gente com saudades daqueles ônibus antigos, nos quais se podia curtir uma viagem silenciosa, abrir a janela quando o vizinho ao lado estava com flatulência depois de comer maionese na casa da sogra. Ou abria-se a janela apenas para sentir o vento no rosto quando era verão. Agora, com as janelas fechadas, ou melhor, sem janela alguma, você não é mais obrigado a dar adeuzinho para a família da esposa, senão através do vidro. E aquela história de entregar um pacote de biscoito de última hora, ou uma fotografia, uma lembrancinha, isso é coisa do passado.

Depois de voltar para casa faça uma pesquisa. Pergunte ao povo se prefere ônibus “convencional” ou com ar condicionado. Não se preocupe, isso só vai dar consistência e justificar os últimos investimentos da sua mega-empresa, pois há uma certeza muito bem enraizada no inconsciente coletivo de que tudo que é moderno é bom. Poucos hesitariam em afirmar que preferem o veículo com ar condicionado. Da mesma forma como, até há pouco tempo, ninguém hesitaria em dizer que preferiria o elegante carpete em vez do convencional e antiquado piso de taco. Até descobrirmos que o carpete é um fantástico criadouro de bichinhos nocivos à saúde humana.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CAPUCCINO

A moça mostrava uma eficiência tão grande, tanto charme enquanto preparava o capuccino, que a gente quase se apaixonava por ela. Misturava no liquidificador o leite em pó e o café solúvel. Despejava a mistura num recipiente com tampa e acrescentava vários outros ingredientes misteriosos, como o bicarbonato e a canela. Mexia aqui, tirando o café expresso dali, derramando a nata fria e o pó de chocolate sobre toda aquela delícia expresso dali, derramando a nata fria e o pe se apaixonava por elaaralela, que jmo tamb. Nos próximos três ou cinco minutos, sorvendo aquele aroma e sabor únicos, parecíamos estar em Paris, no pós-guerra, sentindo toda a força humana convergindo para a reconstrução do Velho Mundo.

Dez ou quinze anos depois mudou a moça, e também a receita. Ninguém mais tem tempo de preparar um capuccino artesanal, por isso ele já vem pronto na latinha. A moça não tem preparo, joga muito pó e fica aquela meleca por baixo de um chantily de péssima qualidade.

Em toda parte estão-se perdendo os profissionais, os artesãos, em troca de produtos elaborados na indústria. Quase ninguém sabe fazer mais nada, senão vender o produto pronto. É mais ou menos isso que vemos também na música.

Eles não são medíocres. Se fossem, estariam na média, mas eles estão muito abaixo da média, embora eles sejam a mídia, os meios através dos quais passam todos os sucessos do Brasil. Eles são o nosso maior fracasso.

Há mais de 20 anos agüentamos a Xuxa, o Faustão e o Gugu, esses criadores da cultura enlatada brasileira. Eles não têm idéia do mal que fazem à nação, e talvez os diretores das emissoras onde eles pregam seus evangelhos de consumo também não saibam.

Há um Brasil explodindo de criatividade aqui fora da telinha, compositores fantásticos, artistas extraordinários criando uma cultura — não alternativa, pois isso parece coisa de bandido — mas uma cultura paralela, que já começa a vazar pelas tampas e está invadindo a internet. Em breve a turma da indústria cultural não conseguirá segurar o rojão e veremos a cultura do Brasil invadir a televisão, como nos velhos e bons tempos.

Quem sabe também volte a moça do capuccino com sua receita misteriosa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O TEMPO EXISTE, NA TUA CABEÇA

Tudo que conhecemos é relação. Através da observação dos relacionamentos que os objetos mantêm entre si, podemos visualizar o tempo, esse elemento físico vaporoso, intocável e transparente. Estudando o espaço, e a maneira como nele os objetos se movimentam, afastando-se, aproximando-se e interagindo uns com os outros, até somos capazes de manipular as horas, como se elas fossem, de fato, algo concreto e palpável. Mas não são as horas que manipulamos, e sim, os objetos que a elas relacionamos.

Quando Einstein disse que “o tempo não existe”, na verdade quis dizer que “o homem criou o tempo”.

Para entender melhor, imagine que você está a cinco quadras de casa. Vai demorar dez minutos até chegar em frente ao portão. A sua noção de tempo vai ficar ainda mais nítida se você contar os passos. Mas a sensação da passagem do tempo nada mais é do que a passagem dos espaços. A cada passo, a paisagem à sua frente se modifica. Se você se concentrar em outra coisa, uma lembrança ou um plano futuro, a paisagem desaparecerá. Será percebida pela sua retina e enviada até o cérebro, mas o cérebro estará ocupado com outra coisa. Estará pensando, por exemplo, onde estava a existência quando você não existia! Estará talvez pensando que Deus não desce mais até nós porque sabe muito bem o que fazemos com as criaturas aladas. E quando você vê, está diante do portão da sua casa, surpreso por ter chegado tão rápido! E você pensa: “Nossa, o tempo passou tão rápido!”. Mas o tempo não passou. O que aconteceu foi que você anulou o a sua sensação de tempo. O espaço daquelas cinco quadras foi substituído por uma fantasia, um pensamento, uma alegoria, e o tempo desapareceu.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

OVOS GORADOS

Tudo que tenho para dizer, Nietzsche já o disse, de forma mais bela e profunda do que eu jamais diria.

Mas temos um século que nos separa, então, o que são as obras, as descobertas, as hecatombes ocorridas nesse intermédio? O século XX foi um período de variações mínimas, ao contrário do que dizem certos entusiastas da velocidade. As estruturas foram pintadas, cantadas, retorcidas, mas nenhum de seus alicerces foi arrancado. Os homens que Nietzsche botou em seu espremedor de laranjas são essencialmente os mesmos de hoje, com os mesmos temores, os mesmos deuses irrevogáveis, os mesmos valores inegociáveis.

Permanece o homem plantado ao rodapé de sua própria história: ainda somos os não acontecidos, os ovos gorados. Tudo que fazemos é reerguer os velhos totens, dando-lhes novo volume e moderna textura, mas a essência que a Natureza buscou produzir em nós permanece em estado de suspensão. O cérebro humano congelou em algum momento perdido da Idade Média. Teve alguns surtos, algumas febres, mas nada que o curasse da desconfiança de que está aqui para ser enganado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O CAOS E A FRITADA DE LAMBARIS


Após pescar, descamar e destripar trinta a cinco lambaris, foi preciso prepará-los para a fritura. Antes de espargir o manjericão, que dá sabor, e o fubá, que dá consistência ao quitute, foi preciso jogar o sal. E nesse momento, enquanto meus dedos rodopiavam os corpos lisos dos peixes mortos na tigela, senti a presença sutil e dramática do caos.

Para salgar trinta a cinco lambaris foi necessário que a mão produzisse uma série de movimentos aleatórios, a fim de que todas as inúmeras minúsculas partes do pescado fossem homogeneamente atingidas pelo tempero. Quanto mais turbulentos esses movimentos caóticos, e quanto maior sua duração, mais eficiente a distribuição dos grãos nas superfícies.

Somente produzindo o caos, extraindo o sal de sua sossegada organização dentro do pacote, que se encontrava na prateleira ao lado do açúcar e do chocolate, foi possível produzir uma nova ordem, denominada “lambaris salgados prontos para a fritura”.

Logo em seguida chegaram Galileu Galilei e Isaac Newton, que me ajudaram a destruir essa nova ordem cosmológica.

domingo, 25 de outubro de 2009

PREENCHIMENTOS

Que espaços ficariam vazios, se eu não tivesse nascido? O que preenchi com minha existência, além de umas poucas fendas? Que espaços permaneceram incompletos nos dias em que preferi ficar em casa? Que corpos ficaram frios quando me guardei em meus próprios braços? Que bocas restaram sedentas quando não ofereci meus beijos? Que olhos permaneceram fechados quando não pensei que poderia abri-los? Quantas lágrimas caíram antes que eu soubesse que poderia estancá-las? Quantas flores se abriram na claridade de um campo ignoto enquanto me ocupava em olhar minhas escuridões?Que pedaços de terra permaneceram desertos aguardando as sementes que guardei em meus bolsos? Que noites foram mais profundas e duradouras, senão aquelas em que aprisionei a luz em meus próprios olhos? Quantas estrelas morrem nas noites em que não saio à janela para cortejá-las?Que versos permanecerão mudos para sempre porque fui dormir no momento de libertá-los?

sábado, 24 de outubro de 2009

A BUSCA

Nenhum homem tem a obrigação de alcançar glórias, de construir obras faraônicas ou de dizer coisas grandiosas. A fama e a glória podem afetar alguns espíritos imaturos, mas não proporcionarão a um homem sábio mais que um breve estado de delírio. Entretanto, mesmo que sua existência não se propague para além de um silencioso anonimato, todo homem deve esgotar as possibilidades na busca de si mesmo, ainda que para isso tenha de expor a brancura de seus ossos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

JAQUETA JEANS

Veja novo velho texto de Chico Guil em:

O MOVIMENTO

Quando Jade tinha um ano e três meses, joguei um disco de vinil no chão e ela foi atrás. O disco percorreu a sala, bateu na parede, rodopiou e finalmente acomodou-se no assoalho. Jade olhou, acocorou-se, fez um muxoxo e saiu em busca de outro brinquedo. O que Jade queria era pegar o movimento!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

EMPINANDO BUNDAS

O automóvel tornou-se o verdadeiro soberano da Nova Era. Feito uma ameba saudável, ele evoluiu rápido, transformando-se ao longo das décadas, virando paramécio, rato, besouro. Nos últimos anos teve um surto, uma febre, transformou-se em lagarta, e agora está pronto para completar a metamorfose e converter-se numa verdadeira borboleta. Sairá voando e abandonará as rodovias, graças a Deus.

Para compreender a força desse besouro ruidoso, vejamos como todas as cidades são desenhadas para que ele transite livremente, enquanto nos mantemos trancados e apertados em pequenos cubículos e estreitas vielas. A urbe é repartida em quadras, de modo a conformar o espaço disponível segundo as necessidades do bichinho metálico. Se ousamos cortar sua trajetória, plupt, atropela com força, jogando-nos de volta às estreitas calçadas, únicos espaços por onde podemos transitar. E mesmo ali, confinados, respiramos os malcheirosos gases da intermitente flatulência deste serzinho malcriado.

A indústria não fabrica automóveis com o intuito de contribuir para o acréscimo de beleza no mundo. Mas com certeza os designers de automóveis fazem uma análise profunda das carências humanas antes de iniciar suas obras. O que mais preocupa o homem? eles se perguntam. O desamor? Não. A decadência financeira? Nem tanto. O descalabro dos glúteos? Sim! É por isso que os automóveis da última geração têm a bunda empinada... para compensar a bunda caída dos compradores.

O PÉ

Não foi somente o acaso, mas uma convergência de vontades o que fez gerar esse tipo especial de pés, estes meus pés largos, compridos e chatos, que mais parecem patas de marreco.

Quando eu tinha seis ou sete anos vim com meu pai até a cidade de Prudentópolis. Passamos na frente da casa do Nono Pedro, e meu pai, vendo que o sogro estava na frente carpindo mato, resolveu chegar. Puxaram assunto e a enxada ficou encostada no banco sob a velha castanheira. Curioso, apanhei o instrumento e comecei a carpir. Meu pai, vendo o perigo, gritou:

— Vai cortar o pé, piá!

E eu, confiante em minha destreza, continuei carpindo, mas não foram mais que três golpes antes de ficar a enxada no dorso do meu pé direito. Foi um jorro de sangue, uma correria, meu pai me carregando para a cabine do caminhão Ford novinho — ah, sim, foi isso, ele deve ter parado ali para mostrar o caminhão novinho para o sogro — até que a enfermeira limpou tudo, me enfiou a agulha, aplicou uma anestesia e concluiu a costura. Foram quatro pontos, como o agente funerário poderá verificar na cicatriz, quando estiver preparando meu corpo para a cova.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

NENÚFAR

Hoje saímos passear, eu, Julian e Audrey. Fomos lá para os lados da Linha Esperança, seguindo em direção ao Gramadinho. Descobrimos as plantas mais inusitadas e colhemos algumas mudas para plantar em nossa chácara. Numa baixada, à esquerda, ao lado de uma casa de ucranianos, vimos os nenúfares.

As flores boiavam sobre folhas largas, parecidas com vitórias régias. As pétalas roxas, degradando em violetas e lilases, recobriam um surpreendente fundo amarelo, produzindo um efeito parecido consegue através de computadores. Flores, enfim, que eu nunca havia visto, apesar de todas as andanças que já fiz por este município. Então fique pensando como elas foram parar ali, e se ali estão pelos séculos e séculos, e como foram, enfim, se transformando naquelas coisas tão singulares e maravilhosas à superfície de um pântano!

Julian, como sempre nesses passeios, bastou andarmos uns dois quilômetros a partir de casa, dormiu, e perdeu todos os cavalos, vacas, cabritos e pássaros à beira da estrada.. Somente quando chegamos a um ponto onde achamos melhor retornar, ele acordou, e logo viu uma manada de vacas marrons, alguns bezerros e um boi. Audrey disse: “Veja as vacas, Julian, estão pastando”. Ao que ele respondeu: “Tão comendo pastel, mãe!”.

sábado, 17 de outubro de 2009

FUNERAL

Ainda que meus olhos brilhem nestas tardes de céu azul e os perigos antigos tenham desaparecido da minha cabeça, é fato concreto que um dia esta mão escreverá sua última linha. Que espécie de anseios revelará? Que tom de poesia, que freqüência de tremores, que frase estará querendo perpetuar para o dia do meu funeral?

UM TEXTO A MACHADO

Veja novo texto de Chico Guil em:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12750

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O NOBEL DA GUERRA

Henry Kissinger participou da cúpula do governo norte-americano durante um longo período, que abrangeu inclusive a guerra do Vietnam. Foi considerado criminoso de guerra, por sua participação em golpes de Estado no Chile, no Uruguai e no Timor. Em 1973 recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua luta em favor do fim da guerra do Vietnam.

Estrategista político dos mais cultuados nos Estados Unidos e em redor do mundo, Kissinger representa o que há de mais sofisticado numa alma negra, para quem o sangue de inocentes não passa de moeda barata. Quando percebeu que o Vietnam não concederia aos USA mais que um final inglório, aconselhou a retirada dos heróis. Os representantes da Academia ficaram sensibilizados e lhe deram o maio prêmio concedido a um cidadão por suas iniciativas humanitárias!

Desde que Obama assumiu o governo dos USA, muitos inocentes morreram ao redor do mundo pelas metralhadoras dos heróis. Ainda assim, a grande imprensa mundial acha conveniente propagar que “terroristas foram eliminados”, em vez de que “cidadãos foram assassinados”. Finge não saber que os lutadores sempre são heróis para a classe que representam, e com isso justifica todos os massacres, relegando a morte de civis à mera estatística, ou déficit de guerra.

Obama apóia tudo isso, e com isso foi laureado com o Nobel da Paz. Em conversa num dos mais populares programas de entrevistas norte-americanos, afirmou que os heróis continuarão no Afeganistão por tempo indeterminado, até a eliminação total do inimigo. Ou seja, na mesma semana em que recebe a notícia do Nobel, confirma sua disposição em continuar matando pessoas mundo afora. Não sabe quem são, não conhece suas famílias, nunca olhou nos olhos dessas pessoas. Mas sabe que são inimigos dos USA, por isso devem e vão morrer.

Os massacres imputados ao governo norte-americano durante o governo Bush são crimes do governo americano, antes de serem crimes do cidadão Jorge Bush Filho. Obama é, acima de qualquer coisa, representante de um governo criminoso, que deveria ser punido pela morte de milhares de inocentes, em vez de ser premiado pelos milhares de inocentes que talvez deixará de matar.

O mesmo motivo pelo qual a palavra herói tornou-se um palavrão, o prêmio Nobel da Paz pode hoje ser considerado uma coisa abjeta, vil, podre. Representa o que há de mais insano e hipócrita na sociedade humana.

CHICO GUIL EM CARTA MAIOR

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

HÁ VAGAS NO CÉU

A falta de vagas no céu mostrou-se um problema grave desde o início dos tempos. O critério de avaliação dos candidatos é assunto controverso, muitas vezes sangrento, e precisa ser urgentemente revisto. Sugiro vestibular com questões de múltipla escolha, incluindo prova de matemática e redação.



segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A LUZ E O FOGO

O fogo é fonte de luz.
Mas se uma luz mais forte incide sobre ele,
sua sombra aparece projetada na parede.
Donde se conclui que o fogo não é luz pura,
porém luz misturada com fumaça.

- - - -

As bodas do amor transportam os amantes
aos mais paradisíacos recantos do universo.
Quando os amantes começam a procurar o paraíso
nos mapas de viagem,
o amor já voou para bem longe.

domingo, 11 de outubro de 2009

A LUA VAI LEVAR BOMBA

Dia desses,
para ver seu lado oculto,
vamos jogar uma bomba
e desgoverná-la.
Lua.

Estes versos de Roberto Cantins foram escritos há aproximadamente 10 anos. Uma profecia que está prestes a se cumprir.
Depois que os norte-americanos explodirem a bomba naquela superfície silenciosa, que há milhões de anos não sofre o ataque de um asteróide, nossa amiga Lua vai nos virar a bunda, finalmente mostrará o lado oculto e abandonará nossa órbita para sempre.
Ficaremos sem as marés, os peixes não saberão mais procriar, nem saberão em que dia e hora poderão ser pescados. Os pés de ameixa não saberão a data certa para serem plantados, e as mulheres perderão seus ciclos de fertilidade. As novas sementes permanecerão em seus ovários, aguardando o retorno da Lua. Se ela não voltar, a humanidade e todos os seres dependentes da sua força e luz terão o mesmo fim.

Violência a céu aberto
A violência com que portugueses e espanhóis atacaram a América foi condenada séculos afora, mas os norte-americanos não aprenderam a lição. Acreditam que suas operações “objetivas” estão levando a humanidade a um estado de graça, mas esta é a visão de um míope. A humanidade caminha com outras pernas, evolui com outros artifícios, descobre-se com outras ferramentas.
As novas invenções — atenção, não são realmente descobertas, mas criações matemáticas! — da ciência médica e da química talvez possam explicar como funcionam o ribossomo, a divisão celular e a carta genética. Mas para que isso? Para prolongar nossas vidas miseráveis? De que adianta prolongar a vida, se não podemos curar o espírito aviltado, sanar a fome esganiçada, conter da marcha sem freios?
Audrey Farah disse que os Estados Unidos estressaram o mundo. E todos os dias, em cada ação cotidiana, percebemos que nos deixamos estressar. Meus amigos estão quase todos gordos e inchados, hipertensos. Querem, mas não conseguem mais parar para conversar. Acreditam na importância de se ler todas as mínimas mensagens que aparecem sempre que abrem uma janela do Windows, mas já não abrem as janelas de suas próprias casas para dar adeus aos conhecidos. Não abrem as janelas de seus olhos para contemplar e abençoar as paisagens magníficas que a Natureza continua nos proporcionando apesar das bombas.
Estamos ausentes de nossas vidas e das pessoas que amamos. Queremos chegar aos confins do universo, e vamos jogando bombas para abrir o caminho, enquanto nossas velhas e frustradas almas continuam recobertas com a velha e endurecida carapaça. Nossos corpos, vestimentas de nossas almas, a cada dia mais cobertos com novas maquiagens e novos conceitos para esconder o mais fundo possível os nossos gritos de animais acuados.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

CRÔNICAS ESCATOLÓGICAS


“Nem parece banco”. Esse slogan esteve em todos os principais canais de TV alguns meses atrás. Com muito orgulho e galhardia, uma das maiores instituições bancárias do Brasil dizia ser tão boa para seus clientes que nem parecia um banco.

Seria algo como o padeiro da esquina dizer “olha, eu vendo um pão tão saboroso que nem parece pão”, ou o vendedor de esterco afirmar que seu produto nem parece esterco.

Está aqui o reconhecimento de que a instituição bancária é uma coisa tão abjeta, tão deplorável, tão maligna, tão podre e lastimável, que nega sua própria natureza quando necessita divulgar-se para manter-se viva. Uma viçosa porcaria que cresce cada vez mais no centro da cidade, um grande monte de esterco (o que mais se pode pensar de um prato de comida que nem parece comida?!).

Disseram-me que o município paulista de Barueri é um dos quatro que mais arrecadam impostos bancários no país. Tem lógica? Imagine a seguinte situação: um grupo de instituições bancárias faz um acerto com determinado município para que este reduza drasticamente o imposto sobre serviço bancário. Em troca, todas essas máfias registram suas sedes nesse município, pagando aproximadamente 1.000% a menos do que normalmente pagariam. E os municípios sedes das agências bancárias ficam sem o seu quinhão de impostos. Alguns deles já estão reivindicando milhões em ressarcimento.

Al Capone foi preso por sonegar impostos. Por que os nossos juízes não põem na cadeia esses mega-sonegadores brasileiros?

A estrela da fotonovela anuncia um iogurte com fibras e garante que em 15 dias todo e qualquer resíduo acumulado entre as dobras intestinais será dado à luz, e o fluxo natural será regularizado. Ela não diz se será necessário continuar ingerindo tal produto para manter o intestino obediente, mas garante que funciona, e se não funcionar a fábrica devolve o dinheiro investido.

Diga-me, leitor, como um indivíduo poderá provar que o artifício não funcionou? Ele terá de filmar a ingestão de todos os iogurtes. E depois, como comprovará que não deu certo? E o fabricante, como poderá averiguar se funcionou, ou certificar-se de que não funcionou? Poderá, quem sabe, designar uma equipe para acompanhar o consumidor em suas idas e vindas ao banheiro. Mas e se na hora ele simplesmente resolver segurar o cocô?

Pode parecer de mal gosto, leitor(a), mas você há de convir que as questões acima estão no cerne da nossa civilização. Precisam ser discutidas e resolvidas, se quisermos continuar andando. A mentira faz parte da instituição da propaganda, enojo-me e concordo, mas há uma grande diferença entre dizer que tal shampoo impede a queda de cabelo e afirmar que este banco é algo melhor que banco, ou que aquele remédio ou iogurte é capaz de dissolver as conseqüências naturais do estresse e da tristeza.