sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O NOBEL DA GUERRA

Henry Kissinger participou da cúpula do governo norte-americano durante um longo período, que abrangeu inclusive a guerra do Vietnam. Foi considerado criminoso de guerra, por sua participação em golpes de Estado no Chile, no Uruguai e no Timor. Em 1973 recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua luta em favor do fim da guerra do Vietnam. 
Estrategista político dos mais cultuados nos Estados Unidos e em redor do mundo, Kissinger representa o que há de mais sofisticado numa alma negra, para quem o sangue de inocentes não passa de moeda barata. Quando percebeu que o Vietnam não concederia aos USA mais que um final inglório, aconselhou a retirada dos heróis. Os representantes da Academia ficaram sensibilizados e lhe deram o maio prêmio concedido a um cidadão por suas iniciativas humanitárias!
Desde que Obama assumiu o governo dos USA, muitos inocentes morreram ao redor do mundo pelas metralhadoras dos heróis. Ainda assim, a grande imprensa mundial acha conveniente propagar que “terroristas foram eliminados”, em vez de que “cidadãos foram assassinados”. Finge não saber que os lutadores sempre são heróis para a classe que representam, e com isso justifica todos os massacres, relegando a morte de civis à mera estatística, ou déficit de guerra.
Obama apóia tudo isso, e com isso foi laureado com o Nobel da Paz. Em conversa num dos mais populares programas de entrevistas norte-americanos, afirmou que os heróis continuarão no Afeganistão por tempo indeterminado, até a eliminação total do inimigo. Ou seja, na mesma semana em que recebeu a notícia do Nobel, confirmou sua disposição em continuar matando pessoas mundo afora. Não sabe quem são, não conhece suas famílias, nunca olhou nos olhos dessas pessoas. Mas sabe que são inimigos dos USA, por isso devem e vão morrer.
Os massacres imputados ao governo norte-americano durante o governo Bush são crimes do governo americano, antes de serem crimes do cidadão Jorge Bush Filho. Obama é, acima de qualquer coisa, representante de um governo criminoso, que deveria ser punido pela morte de milhares de inocentes, em vez de ser premiado pelos milhares de inocentes que talvez deixará de matar.

Pelo mesmo motivo pelo qual a palavra herói tornou-se um palavrão, o prêmio Nobel da Paz pode hoje ser considerado uma coisa abjeta, vil, podre. Representa o que há de mais insano e hipócrita na sociedade humana.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SEM ISONOMIA VIROU FOLIA

Há um tremendo vazio a ser preenchido, nos mais diversos setores da administração pública do Estado do Paraná. Os novos deputados deverão apresentar novas ideias, acima de tudo. Igualmente, deverão apresentar novas atitudes perante o Executivo. Devemos lutar pela isonomia dos poderes, sempre e apesar de todos os fracos que povoam a ALP.
Alguns me perguntam o que vou fazer (se eleito deputado estadual) naquele balaio de gatos chamado Assembleia Legislativa do Paraná. Não sei se é um balaio de gatos ou de marrecos, mas sei que a ALP tornou-se uma instituição nada respeitável nos últimos anos. A maioria dos deputados age como os vereadores de uma certa cidade da região Centro Sul paranaense, que vivem sob a sola do sapato do prefeito. Um bom deputado cria bons projetos, que se tornam atraentes para o Executivo estadual. Um bom deputado apoia o governo quando este propõe obras de interesse popular. Mas um bom deputado vota contra obras impopulares. E um bom deputado sempre encontra cerca de 10% a 15 % de colegas que pensam e agem como ele. 
Afirmamos todos os dias que "a política é suja". Mas não podemos esquecer que na política há também pessoas que nela entram para tentar resolver as coisas, para fazer o que é preciso ser feito. Se não fosse assim, ainda estaríamos vivendo nas cavernas. Devemos admitir que muitas obras já foram realizadas por diversos governos, apesar de todas as denúncias de corrupção e roubalheira. 
Como deputado estadual, contarei com cinco ou seis colegas, a quem darei apoio, e que me apoiarão. Haverá outros quinze ou vinte com quem será possível conviver, e até entrar em acordo. Com o restante será difícil. Mas nem por isso estarei engessado. Porque um deputado não é somente um provedor de recursos para os municípios de sua influência. Ele pode e deve ser um PARLAMENTAR, um meio entre o governo e o povo. E um bom parlamentar sabe, antes de tudo, que "o poder emana do povo" e que sempre continuará emanando. Não poderei fazer um bom mandato sem esse poder popular. Contarei com o apoio das lideranças do meu município e das vizinhanças que queiram somar comigo, no planejamento de médio e longo prazo para um desenvolvimento mais pensado, mais criativo e mais ousado. 
(CHICO GUIL - candidato a deputado estadual - 43003)

sábado, 6 de setembro de 2014

TEMPO DE FORÇA

A Natureza possui elementos de força, como as tempestades, as cataratas, o raio, as marés, os ventos. No equilíbrio dinâmico das estrelas e dos planetas, é a força que mantém o controle. Mas os instrumentos de transformação da Natureza são mais sutis. Tudo começa no mínimo, que se avoluma, toma corpo e se apodera. As tempestades, as cataratas e os raios só acontecem porque houve a suave evaporação das águas. Os ventos, mesmo os mais fortes, acontecem como consequência de mudanças inicialmente mínimas de temperatura entre os polos e os trópicos. As marés ocorrem pela invisível interferência da Lua nos oceanos.
Os homens nascem e morrem como consequência de alterações sutis dos hormônios, das células, dos tecidos. A vida se expande silenciosamente, se reproduz e se extingue, sem explicações e sem arrogância.
Mas a mente humana veio perturbar o equilíbrio das coisas. Criou mecanismos para uma vida mais livre e confortável. Mal sabia eu estava projetando uma situação global de estresse e desconforto. A mente humana nunca está confortada, precisa criar mais, produzir mais, sentir mais, comer mais, vencer mais! Raros são aqueles que se dão à contemplação, ao usufruto da vida. Poucos sentem o sabor do morango, da manga, da carambola se desmanchando na boca. Vejo naqueles jantares especiais, a mesa posta, tão bonita, tão apetitosa, a fome impera, estão todos excitados pelos aromas que evolam da cozinha. Mas quando enchem os pratos e atacam a lasanha, o boi, a maionese, estão todos falando ao mesmo tempo, contando os progressos da semana, o novo plano de pagamento da TIM, a nova contratação do Jurubeba Esporte Clube...

A força da informação está nos empurrando para o abismo da mais completa idiotia. Não sabemos mais classificar o que é realmente importante para as nossas vidas. Porque todas as informações se impõe como importantes. Anjolina Jiló comprou um anel de pedra-sabão em Cingapura, o jogador de basquete caiu da ponte, o apresentador do JN pisou no tomate, o Neymar quebrou a perna! Tudo isso é muito forte! Mas a Natureza continua tecendo, cuidando das nossas células, da nossa reprodução, da nossa vida, tramando para fazer retornar o equilíbrio, tentando nos devolver a saúde roubada pelas noites insones, pelas pizzas, pelo uísque, pelas dívidas...


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

sábado, 9 de agosto de 2014

A IN-DISCIPLINA DO AMOR

O amor é a anulação do ego. Ao menos em parte, ou completamente. Quem ama, mais ou menos intensamente, entrega parte de si pela felicidade alheia. E encontra prazer nessa dádiva. Alguns se anulam na entrega, tornam-se doentes de amor, perdem a si mesmos como referencial e se tornam insuportáveis. Mas aquele que tudo pede e nada entrega é igualmente intolerável.
Os extremos de egoísmo e de amor, são ambos indesejáveis. Um não respeita o próximo, o outro não respeita a si mesmo. O melhor caminho, como sempre, é o "caminho do meio". Metade de amor para mim, metade para você, numa reciprocidade que não exige interpretações.
As escolas podem e devem falar sobre sentimentos. Os professores do futuro estarão preparados para conversar com seus alunos sobre essas coisas. São a parte mais importante de nossas vidas. É um absurdo que os alunos devam aprender sobre guerras, logaritmos e moléculas, mas nada lhes contem sobre os sentimentos humanos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

quarta-feira, 23 de julho de 2014

CHEGA DE "TAPAÇÃO DE BURACOS"

(Chico Guil - candidato a deputado estadual nº 43003)

A Assembleia Legislativa do Paraná está repleta dos velhos sobrenomes. Os filhos dos políticos antigos sempre se apresentam nas eleições como o “novo”. Mas trazem todos os vícios praticados por seus pais e avós, votando contra a população e a favor dos grandes grupos econômicos. Eles não têm projetos consistentes para mostrar ao eleitorado, porque não é esse o seu objetivo. Falam constantemente de partidos, de acordos e de conchavos. Mas não se vê um deles expondo projetos com a clara intenção de melhorar a vida das pessoas. Nas reuniões partidárias falam muito sobre “como vencer a eleição”, mas nada dizem sobre o que farão depois da vitória!
Os políticos tradicionais (ou seus herdeiros) querem que tudo fique como está, pois encontram-se bem assentados em seu mundo de superconforto e superaventuras. Não apresentam projetos para um País melhor, um Estado mais justo e uma cidade mais agradável, pois vivem naqueles castelos inexpugnáveis, onde tudo é perfeito e maravilhoso. E com sua inércia acabam nos convencendo de que “as coisas são assim porque devem ser”. As velhas ideias vão sendo refinadas, com fins exclusivamente eleitoreiros, e nada de novo acontece. Os poucos recursos direcionados pelo governo estadual aos municípios não são apresentados como parte de um projeto amplo, bem pensado e bem dirigido. Uma ponte aqui, uma escola ali, uma estrada acolá. É uma “tapação de buraco” sem fim e sem objetivo, senão o de atender a uma clientela eleitoral. 
Apesar desse tradicional pessimismo, a vida renasce todos os dias, dizendo Sim! Sim, nossos dias podem ser mais saborosos e divertidos! Sim, podemos ter escolas melhores e mais ambiente de lazer. Sim, podemos criar mais espaços para a convivência e mais oportunidades para a realização pessoal. Chega de construir cidades para o sofrimento! As pessoas querem trabalho digno, mas não apenas isso. Querem vida, querem paz, querem acreditar em seus sonhos! Nossas cidades devem e podem ser melhores. Mas se queremos mudanças, precisamos antes  mudar o nosso modo de votar.
Os novos deputados devem apresentar projetos com o objetivo de inovar o modo de gerenciar o Estado, com repercussões positivas nas cidades e no campo. Precisamos de parlamentares que se proponham a elevar a vida dos cidadãos em níveis mais inteligentes e eficientes. Mas onde estão esses políticos que farão a difícil transposição da utopia para a realidade, da vida ruim para uma vida de qualidade?
Cidadãos conscientes e bem intencionados se candidatam em todos os pleitos, com o firme propósito de mudar nossa realidade para melhor. Mas eles quase sempre ficam para trás na contagem dos votos. Porque não aceitam fazer o jogo sujo da política tradicional e, acima de tudo, não compram votos. Em consequência, a grande massa eleitoral vai para os malandros de sempre, aqueles que fazem o jogo, que compram e vendem almas, que investem fortunas em suas campanhas. E que depois de eleitos trabalham para manter no poder os grandes grupos econômicos.
Chega de dizer que “a política é suja” e fugir dela! Os responsáveis somos nós, que votamos em pessoas que não pensam duas vezes antes de sujar as luvas de seda. Está na hora de passar de fase, de virar o disco e ver o que tem do outro lado... está na hora das pessoas decentes assumirem posições na esfera política e dar um basta ao discurso viciado e à falta de iniciativa dos políticos tradicionais.

Se você concorda com o que acabou de ler, vote em mim. Vou honrar o seu voto, criando projetos para a melhoria da vida nas cidades e no campo, intermediando o diálogo entre a população e o governo estadual e fiscalizando a execução das obras para que aconteçam na forma da lei.
Obrigado!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

UTOPIA X REALIDADE

O político brasileiro trabalha com medo. O medo de ser apanhado em falcatruas, ou o medo de não obter a reeleição. Está sempre tenso, oferecendo sorrisos nada sinceros, falando de partidos, de acordos, de conchavos. Durante a campanha os políticos tradicionais não falam de planos de governo (exceto em programas eleitorais, onde são chamado a apresentar propostas). Falam sobre “como vencer a eleição”, mas nada dizem sobre o que vão “fazer depois de ganhar a eleição”.
O medo do político reflete o medo que está impregnado em nossa sociedade. Vivemos um momento de grande fartura material, mas não estamos satisfeitos. Por que, se nossa mesa é farta, se temos casas confortáveis? Se temos automóveis, ônibus e aviões que nos transportam aos quatro cantos do mundo? Os aparelhos tecnológicos nos põem em contato permanente uns com os outros e nos propiciam as mais inusitadas sensações através de filmes e jogos. Mas tudo isso ainda não basta! Por quê?
Talvez porque temos sede de plenitude. Temos medo que a vida passe e acabemos descobrindo que não fizemos com ela o que gostaríamos de fazer.
Mas só temos uma oportunidade, então precisamos enfrentar o medo e apostar na alegria! Apesar de todos os pessimistas, a vida renasce todos os dias, dizendo Sim! Sim, nossos dias podem ser mais saborosos e divertidos! Sim, podemos criar mais oportunidades para os encontros, para a descontração e o lazer. Chega de construir cidades para o sofrimento! Chega de construir cidades para o reinado dos automóveis! Apesar de tudo que dizem sobre “qualidade de vida”, a vida das cidades é ruim. Os refúgios são os bares e os shoppings! Não é um absurdo? Mas o absurdo tornou-se normal!
Os próximos governos terão de repensar o modo de gerir as cidades. Precisamos de parlamentares que pensem constantemente em melhorar a vida dos cidadãos (utopia). Mas eles passam quatro anos pensando num modo de se reeleger (realidade). Onde estão os políticos que vão fazer a difícil transposição da utopia para a realidade?
Cidadãos inteligentes e bem intencionados se candidatam em todos os pleitos, mas sempre ficam para trás na contagem dos votos. Tudo porque não aceitam fazer o jogo sujo da política tradicional. Não aceitam acordos espúrios, não apertam a mão dos bandidos, não prometem o impossível e, acima de tudo, não compram votos. Em consequência, a grande massa eleitoral vai para os malandros de sempre, aqueles que fazem o jogo, que compram e vendem almas, que investem fortunas em suas campanhas. E que depois de eleitos trabalham para manter no poder os grandes grupos econômicos do Estado e do País.
Não somos mais crianças, por isso chega de dizer que “a política é suja”. É suja porque votamos em pessoas que não pensam duas vezes antes de sujar as mãos. Está na hora de passar de fase, de virar o disco e ver o que tem do outro lado... está na hora das pessoas decentes assumirem posições na esfera política e acabar com o discurso miúdo e ridículo dos políticos tradicionais.
Se você concorda com o que leu acima, vote em mim. Não lhe prometo nada, apenas isto: que a Assembleia Legislativa do Paraná nunca mais será a mesma depois que eu passar por ela. Obrigado!
Chico Guil, candidato a deputado estadual – Número 43003 CNPJ /PV

quinta-feira, 1 de maio de 2014

BANANA, A FRUTA

Poucos dizem, mas parece que todos sabem que a banana é o alimento mais completo, depois do leite. Macacos comem bananas porque são inteligentes. É uma fruta deliciosa e super-nutritiva. Mas a mente humana é doente. Pessoas têm medo de associar sua origem animal à dos macacos, embora as evidências sejam incontestáveis. Há inúmeros crânios apresentados pela paleontologia que demonstram nossa evolução, desde as algas, passando pelos paramécios, lagartos, tatus-bolas, cavalos, orangotangos, Einstein!
Agora me diga, leitor, por que tanto medo disso? A resposta é simples: porque as pessoas acreditam que foram criadas por um Ser Infalível — aquele a quem rezamos todos os dias e que nunca dá as caras por aqui. Fomos criados com esse formato: duas pernas, dois braços, um nariz e uma mente capaz de conceber o estupro, os filmes de terror e o genocídio. E tudo que está à margem desse conhecimento é uma afronta! Mas o problema não é somente esse. Quando falamos sobre “evolução natural” nos enchemos de medo de que a prosa sobre o mundo sobrenatural seja somente uma fábula. As pessoas acham que para manter a fé em Deus é preciso acreditar na lenda de Adão e Eva. Não acreditam, é claro, mas fingem acreditar, para não serem excluídos da sociedade mentirosa em que vivem.
Os europeus em geral sempre foram muito preconceituosos. Há relatos nojentos de suas atitudes contra pessoas consideradas de outras raças, principalmente contra os negros. E o motivo é visível. Macacos em geral são negros. Os narizes dos macacos são naturalmente achatados, muitos deles nem têm nariz, têm apenas dois furos que conduzem aos ductos nasais. Os negros em geral têm nariz achatado. E os Europeus, com seus narizes cada um mais feio que o outro, consideram que nariz reto, torto, em forma de anzol, com formato de corcova de camelo ou qualquer outro ainda mais ridículo é normal, mas nariz achatado não, é uma afronta à estética ocidental! Estou falando de nós, europeus, que nos espalhamos pelo mundo levando nosso racismo e nossa violência contra todos os povos da Terra.
Dizem que os negros têm um cheiro diferente do cheiro dos brancos. É claro que têm! Um chinês cheira diferente de um polaco. Da mesma forma como um gato siamês cheira diferente de um angorá. Todos cheiramos diferente uns dos outros — por isso vivemos nos estranhando — mas quem pode provar que o cheiro de um é melhor que o cheiro do outro? Os brancos costuma(va)m dizer que os negros não gostam de trabalhar. É possível que não. Viviam da coleta de frutos em sua terra natal, quando fomos lá e os arrancamos na marra, na base do chicote e do garrote para que limpassem as nossas latrinas, amamentassem nossos filhos, servissem de objeto sexual e de objeto de nosso sadismo por quatro séculos. Agora queremos que sejam trabalhadores exemplares, objetivos, inteligentes e cultos, como somos nós, os grandes heróis europeus. Ora, dá licença!
Os negros evoluem em todas as comunidades ao redor do mundo dentro de suas possibilidades. Quando foram libertados dos grilhões foram deixados à beira da estrada sem um tostão no bolso e safaram-se criando favelas em redor das cidades. Queríamos que ficassem bem quietos lá, mas eles saíram! Muitos tornaram-se cidadãos exemplares, trabalhadores, juízes e até mesmo milionários. Muitos tornaram-se bandidos.
Os negros nos perturbam. Não porque são o que são, mas porque nós, brancos, somos o que somos: medrosos, mesquinhos, covardes e egoístas. Quando decidirmos pagar aos negros a dívida de 400 anos de exploração do seu trabalho, da sua dor, da sua humilhação e da sua morte, talvez as coisas começarão a sair do zero.
Nossa noção de “ser humano” é que merece uma banana. Aquela representativa de desprezo, não a banana de verdade, que é a melhor dentre todas as frutas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A VIÚVA

O céu parece uma jóia de um azul intenso. O vento nas copas altas dos pinheiros desce sobre a paisagem verde mata, arrastando folhas e pétalas rumo à distante e tênue silhueta da Serra da Esperança. O vento é tão consistente que parece líquido, um rio límpido e rumoroso, que arrasta para longe o meu olhar. Há um capricho extremado da Natureza na composição desse ambiente, tudo desenhado para o desenvolvimento de consciências singulares. Os espaços são imensos, cada arbusto, nuvem e cipó florido chamam a uma interpretação poética. Mas a conversa à mesa, onde há poucos minutos foi consumido um grande pedaço de boi, repete-se como uma crônica antiga. Fulano teve o telhado da casa destroçado pela pedreira, Sicrano dormiu na valeta perto da bodega, Estefano comprou um trator, a mulher de Feliciano foi internada com fortes dores nas costas, Beltrano morreu de veia entupida. Os corpos passam de um instante a outro, amparados em mecanismos de impressionante fisiologia, minuto a minuto transformam proteínas, açúcares e gorduras, que se incorporam às células e preservam essas vidas. As bocas, enquanto dizem maravilhas ou asneiras, só o fazem porque as mitocôndrias do músculo da língua estão queimando adenosina trifosfato - ATPs. Por essas e tantas razões, penso que os donos desses corpos deveriam viver em estado de êxtase. Pelo alucinante fenômeno da vida, do dom de respirar e de sentir todos esses aromas ofertados pela primavera, deveríamos pensar somente no próximo passo estupendo que vamos dar! Mas as nossas cabeças são feitas de uma maçaroca de pensamentos confusos, herança de nossos complicados ancestrais. Apenas raramente escutamos a sinfonia dos anjos, o tilintar dos sinos que vem pelo caminho das estrelas e desce com os ventos sobres essas paisagens desiguais. Tão poucos se dão conta deste momento único e irrecuperável que estamos vivendo! Estrelas explodiram, sóis se formaram, galáxias se aglutinaram, o planeta Terra instalou-se na órbita solar numa exata configuração de 23º 26' 21'' em relação ao eixo de sua rotação para que tivéssemos o privilégio das estações... Depois a vida terrena se fez, como uma especiaria, um sucesso, um adorno tão rico e diverso no corpo duro e estéril deste universo frio, feito de rochas e vazios... A vida fora da cabeça humana acontece como uma sofisticada rede de interrelações, proporcionada pelas Leis jamais corrompidas da Natureza. Em obediência a essas mesmas Leis formou-se a sofisticadíssima mente humana. Mas a mente humana perde-se no domingo à tarde comentando mais um empate do Corinthians, ou fofocando sobre a escolha da viúva de Beltrano, que preferiu aposentar o vestido preto dois meses após a morte do falecido, passou a usar saia estampada e sorri a todos que passam, em vez de recolher-se em sua tristeza... Pecado!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

DESREGRADOS

As pessoas instalam as regras, e as regras tornam-se sagradas. Não porque sejam as mais certas e necessárias, mas porque tudo que foi estabelecido parece impossível de se mudar, como aquelas "porcas" de metal que enferrujam em torno do parafuso e depois não querem sair. Só se soltam à base de marteladas. 
Você pensa que vive num mundo onde ocorrem muitas revoluções por minuto, tudo muda o tempo todo, as cores, as formas, a moda. Mas nas profundezas do nosso sistema, tudo está como sempre foi. Estamos emperrados, empedrados, paralisados num tempo em que se adora os reis (do dinheiro, do futebol, da moda), em que se despreza e se pisa os fracos, em que se violenta e se machuca os pequeninos. Para os modernos homens brutos, toda delicadeza é "viadagem", toda sensibilidade é sinal de fraqueza, todo gesto polido é uma temeridade. Nunca fomos tão machistas, tão racistas e preconceituosos como nos dias que correm. A televisão manda comprar, acreditamos que é essa a regra moderna, então compramos todos esses belos produtos das vitrines como se fossem a salvação, e depois eles são jogados num canto, inutilizados em forma de lixo.
Saia pra fora, respire, vá caminhar no meio do mato, onde não existem regras. Observe os bichos, vivem sem leis e não se sabe de um deles que tenha morrido de estresse — pelo menos, enquanto não caiu nas mãos humanas. Dê uma olhada numa loja veterinária, todos aqueles pássaros engaiolados. São uma beleza a ser levada pra casa, ou são o símbolo da aflição humana? Nós engaiolamos peixes, tigres, pássaros, pessoas, sentimentos! Dá uma olhada numa Câmara Municipal, aqueles homens cheios de regras. O que fazem com suas sagradas leis, senão perpetuar a incoerência, a estática, o tédio? É preciso romper a regra, deixar voar os pássaros, soltar mais uma vez o velho grito de liberdade, esse pássaro raro que cresceu nas profundezas de nossas almas oprimidas...

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A CASA DA FELICIDADE

A pequena Mayara seguia pelo caminho da mata, acompanhada de sua tia Jussara. Respirava fundo, a intervalos, como querendo sorver a perfumaria densa e densa que evolava das folhas secas. O aroma misturava-se ao dos primeiros brotos da primavera, saindo verde claro das cerejeiras e marrom-avermelhado das jabuticabeiras.
— O que você leva neste pacotinho, Mayara? — perguntou a tia.
— O Vô Guairacá tinha uma estátua de barro lá na cidade — respondeu a menina, fingindo não ouvir a pergunta. — Os brancos fizeram a estátua sabendo que ela ia se desmanchar.
— Mas quando ele fugiu e retornou à aldeia, todos nós festejamos.
— Ele queria se tornar um homem branco?
— Não. O seu avô sempre foi um sábio. Procurou os brancos para fazer um acordo sobre as nossas terras invadidas. Depois ele ficou sabendo o que os brancos fazem com os acordos.
— A Vó Jurema disse que ele tinha uma protetora.
— Sim, é verdade. Havia uma mulher muito sábia, que veio de uma terra distante. Mas essa era única no meio daquela gente gananciosa. Quando a estátua começou a se desmanchar, ela saiu gritando, chamando o seu avô, mas ele desapareceu no meio da mata. Depois voltou envergonhado à aldeia, mas o importante é que venceu a vergonha e voltou.
— Eu queria ter conhecido o avô. Eu sei que ele me ajudaria.
— Ele morreu de tristeza.
— A avó disse que mesmo na tristeza ele nunca perdeu a altivez.
— Isso também é verdade. Mas para que você precisaria de ajuda, Mayara?
— Por uma causa.
— Entendo. Vai me dizer o que leva aí no seu pacote?
— Eu segui os conselhos da avó. Juntei todas as minhas virtudes pra oferecer à Felicidade.
— Elas estão aí no pacote?
— Sim.
— E por que estou vendo no seu semblante aquela tristeza do seu avô?
— O avô sabia o que era justo. Ele queria a Justiça, não queria uma estátua de barro.
— Sim, mas a Justiça não é as mãos que amassam o barro. A Justiça é o barro, e o barro está à mercê das pessoas.
— E a Felicidade, o que é?
— Ninguém sabe. Dizem que a gente só sabe quando ela se afasta de nós. A avó conta que a Felicidade nasceu com a nossa tribo. Ela caminhava faceira pela floresta e conversava com todos. Mas depois chegaram os brancos com aquela tristeza profunda, e a Felicidade foi se desviando mais para dentro da mata. Dizem que no começo ela aparecia nas festas, mas depois o nosso povo abandonou as festas e ela não apareceu mais por aqui.
— Talvez ela tenha aquela altivez do avô.
Jussara riu-se, em silêncio. Dobrou os braços nas costas e continuou acompanhando os passinhos de Mayara. O caminho da floresta abriu-se num campo de vassoureiras, com suas franjas amarelas e brancas estremecidas por mamangavas e pintassilgos. Na colina próxima descortinava-se a aldeia, tomada pela névoa ocre do entardecer. As poucas nuvens no alto da Serra da Esperança começavam a pintar-se de laranja.
— Você gostaria de conhecê-la? — tornou Jussara.
— A avó sempre me fala dela. Fiquei esperando que aparecesse na aldeia, mas nunca tive a sorte. Dizem que ela é amiga das crianças, mas então, por que nunca aparece?
— Um dia desses posso mostrar onde ela mora.
— A avó me disse onde ela mora. Você já foi lá?
— Sim, quando eu tinha quinze anos. Mas a casa estava vazia, e tomei aquilo por um sinal. Acredito que vou encontrá-la, mas só quando for a vontade dela.
— É assim, então, somente quando ela quer?
— A Felicidade não poderia receber a todos em sua casa. Ela prefere sair em busca dos que a mereçam.
— E você sabe de alguém aqui da aldeia que ela tenha visitado?
— A avó é uma dessas pessoas.
— A Vó Jurema? Então é por isso que ela está sempre alegre! Às vezes penso que a avó é a nossa única fonte de alegria. E quando foi que ela recebeu a visita da Felicidade?
— No dia que o avô morreu. Ela nem teve tempo de ficar triste. Muitos até estranharam.
— E o que a Felicidade disse pra ela?
— Que ela visse o dia passar.
— Só isso?
— A Felicidade não é de muitas palavras.
— Ela estava em casa hoje. Eu vi a fumaça do petinguá. E vinha um cheiro de potiúna cozido.
— Está me dizendo que você esteve lá?
— Eu levei o meu pacote de virtudes e chamei por ela. A porta estava aberta, mas ela não veio me receber.
— Não pensou que, se a porta estava aberta, era um oferecimento?
Os olhos de Mayara se abriram e brilharam ao fogo do crepúsculo.
— Eu vou lá, tia — disse, voltando-se sobre suas pegadas e retomando o caminho.
— É tarde, Mayara — alertou a tia, mas a menina apressava o passo na direção da mata. — Vai anoitecer e o caminho fica perigoso.
— Hoje não me ensine sobre os perigos, tia. Se ela está com a porta aberta, o que devo temer? Venha, venha, venha junto comigo, deve caber pelo menos duas pessoas na casa da Felicidade...


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

SEGREDOS DA LUZ

As cores e formas estão nos sonhos porque há uma fonte que as ilumina. Não há sonhos sem imagens, exceto, talvez, para aqueles que nasceram cegos. Como se formariam as imagens, se não fossem iluminadas? Mesmo que em nossa mente elas correspondam a padrões elétricos — captados no mundo real, transformados na retina e transportados ao cérebro — se algo as vê, durante o sonho, ou na imaginação do indivíduo desperto, é sob a luz que as ilumina, traduzindo em imagens os raios luminosos. Significa que guardamos luz em nossas mentes, e fazemos o prodígio de, com ela, criar objetos e situações inéditas, que agora, no sonho ou na imaginação desperta, são pela primeira vez contemplados. Se podemos ver, em nossas mentes, pessoas agindo em torno de objetos iluminados, não podemos negar que realmente existem, se são percebidos como cores e formas em movimento e, portanto, estão sendo iluminados, e é evidente que há uma fonte que os ilumina. Mesmo que esta fonte seja elétrica — ou espiritual — o fato é que ela ilumina, define cores, formas e situações determinadas no espaço-tempo caótico do nosso sonho-imaginação. Seja qual for o acontecimento, a luz sempre chega antes das testemunhas.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O FIO DE LÃ

Se você queimou o cérebro com amargura, faça-o mergulhar nas origens da vida, nas brincadeiras da infância, e tudo florescerá como se fosse primavera.

Foi esta a dádiva que colhi no Ginásio Alberto de Carvalho. Havia três sétimas séries no horário noturno. Eram alunos com mais de quinze anos, que trabalhavam de dia e à noite iam à escola para ficar longe dos pais, que eram paupérrimos e neuróticos. Os garotos tinham mofo na pele, suas pálpebras eram escuras e margeadas com pequenas rugas precoces, músculos contraídos que precisavam relaxar. Eu tentava fazer com que a minha breve passagem por suas vidas fosse uma temporada feliz, aquela que talvez eles nunca mais viessem a ter. Queria saber que dormiriam tranqüilos ao lembrar que alguém do mundo inacessível participava de seu mundo. Custavam a me olhar de frente. Quando o faziam, havia nos rostos uma risada nervosa, involuntária, que denunciava uma grande tristeza. Procurei criar oportunidades de aproximação, como na vez em que fizemos uma festa com uma blusa de lã.
A escola não fornecia apagador, e eu nunca lembrava de comprar. Levava pedaços de camiseta velha para limpar o quadro. Mas naquela noite havia esquecido também o paninho. Pedi às faxineiras e elas me trouxeram um pedaço de blusa de lã. Apagava mal e fazia um barulho áspero. Logo que bateu a campainha indicando o fim da primeira aula, como eu soubesse que a próxima seria também naquela classe, sentei-me na mesa e comecei a contar a história de Sherazade. O pedaço de lã esquentava os dedos entre as fibras, até que, enfim, encontrei o começo da meada. Puxei e senti que se soltava. Puxei mais um pouco e o fio foi-se acumulando sobre minhas pernas. Alterei o enredo d’As Mil e Uma Noites e comecei a falar das nossas histórias, que estavam irremediavelmente entrelaçadas. Enfim amarrei a ponta do fio no pé da mesa e comecei a andar pela sala, e o fio foi-se enroscando nos pescoços e braços dos alunos. A sala inteira estava sendo enovelada, interligada pela lã, aí começou a gritaria. Os garotos pegaram o fio e passaram a amarrá-lo uns nos outros, alguém não se conteve e começou a cantarolar uma música caipira, outros acompanharam, e naquela noite até a mais tímida e infeliz daquelas criaturas, uma garota com corpo de homem e rosto desfigurado, levantou de sua carteira e participou da balbúrdia solene.
Após vinte minutos de festa chegou o diretor e me encontrou de pé sobre a mesa, tocando guitarra com um pedaço de carteira. Perguntou o que acontecia. Respondi que estávamos fazendo terapia de grupo. Como ele próprio me houvesse apresentado àquelas turmas da noite, assegurando-lhes que eu era um professor excelente — embora ele conhecesse apenas o nome da minha família — e como estivesse achando muito estranha e engraçada a cena a que assistia, os alunos espalhados pela sala e embolados num longo fio azul, pôs-se a rir e fechou a porta. A turma fizera silêncio no momento da aparição, o que nos permitiu ouvir as gargalhadas do diretor retumbando no corredor.
Olhando os garotos, os rostos iluminados em minha frente, eu colhia meu melhor aplauso. E a certeza de que os caminhos da luz eram tortos, e que minhas pernas jamais se livrariam do destino de andarem sem rumo, nem lei, nem o aconchego da aprovação, senão nos momentos fugidios do êxtase.

Ao fim daquela noite meu amigo Rubem Alves falou das coisas escondidas, que não ousamos pronunciar, lá nas dobras esquecidas dos nossos espíritos. Lá espreitam, grávidos de luz, túrgidos de néctar delicioso, o louco e o poeta...
Meus músculos amoleceram ao ouvir essas palavras, os olhos rodopiaram nas órbitas, o diálogo interior desapareceu. O néctar escorria abundantemente pelo canto dos lábios, a luz inundava o quarto, e as imagens pintadas nas paredes tomaram vida e vieram conversar ao pé da minha cama.
— Vamos, Chico, passe a língua pelos lábios. Perceba, não há néctar, apenas o desejo do açúcar. Não há luz, apenas a insinuação da claridade nas sombras. O néctar é das flores e você apenas um caule cinzento. A luz é um feixe luminoso e você apenas um tímido raio. A vida é um fragmento da existência que ainda não se encaixa no resto do universo!


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A BIGORNA E A CURA


Quando eu tinha dezoito anos vi, pela primeira vez, rapazes se tocando e se beijando num salão de danças em Curitiba. Achei aquilo bem estranho e fiquei realmente incomodado. Eu era preconceituoso? Sei lá!
Eu já tinha visto uns caras meio efeminados em Prudentópolis, mas nunca os visualizara aos malhos uns com os outros. O que eu sabia era que homens amavam as mulheres e vice-versa, mas homens amando homens era uma coisa muito nova. Até então eu só ouvira uns relatos pouco esclarecedores sobre o assunto. Se eu era preconceituoso, precisei estudar a questão para poder me consertar!
Antes que eu cristalizasse o preconceito em meu coração, vi-me morando numa casa de estudantes na capital, dividindo com 87 homens um prédio de quatro andares. Pelo menos cinco daqueles homens eram homossexuais. Eram homens tímidos, porém decentes, criativos, estudiosos, inteligentes, cultos, sinceros. Aprendi muita coisa com deles, porém nada relacionado a sexo. Em nenhum momento eles se insinuaram para o meu lado, nem tive com eles uma única decepção. Como confiavam em mim, vinham com frequência me contar seus dissabores. Um deles me disse que antes de deixar sua cidade, Lajes-SC, “quando batia a fissura”, isto é, quando sentia vontade de transar, sabendo que não podia atacar na sua região para não causar urticária nas “pessoas de bem”, viajava para o Rio de Janeiro. Foi então que compreendi o grande drama que essas pessoas vivem. Não gostam (sexualmente) de mulheres, gostam de homens, mas não podem correr atrás de seus objetos de desejo, porque nós, os fodões, os donos do mundo, os sacos-roxos da putaquepariu, nós rimos da cara dessas pessoas, nós os metralhamos, nós os matamos e exterminamos. Enfim, nós destruímos essas pessoas, e por quê? Tão somente porque eles representam um enigma que não conseguimos decifrar!
Você pode dizer que homens se beijando na praça “é uma nojeira”. Mas isso é realmente um problema deles, ou um problema seu, que não consegue entender o mundo dessas pessoas, ou não consegue virar o rosto para o lado e seguir andando para cuidar da sua própria vida?  Qual é a verdade? Onde está a resposta? Qual é, na escala da ciência, a diferença essencial entre o pirulito e a flor? São ambos elementos acessórios do sistema reprodutor humano! Homem e mulher são duas peças do mesmo sistema, e o pirulito e a flor só se tornaram esse terror em nossas mentes (não podemos nem mesmo dizer em público as palavras “pinto” e “buceta” para não chocar os caretas!) porque nós ainda somos um bando de patetas.
A natureza, mãe de tudo e de todos neste planeta, não reclama nem pune os homossexuais. Mas no meio social dois homens não podem esfregar seus corpos um no outro, porque assim determinam as regras sociais! Entendo. Mas você entende que todas — TODAS! — as regras foram feitas por pessoas, e que pessoas são seres envenenados por traumas, complexos, vícios, ódios, traições, rancores e tristezas de todo tipo? Se você quer metralhar e acabar com todos os gays do mundo, vá em frente. Mate-os todos! Mas o que isso terá mudado em você? Terá obtido a grande resposta para aquela bigorna que bate em sua cabeça todos os dias buscando respostas? Quem sou eu? Tóóóimmm! O que é ser um macho? Tóóóimmm! O que é despertar neste mundo louco, tomar consciência da própria existência, viver meia dúzia de décadas e desaparecer para sempre? Tóóóimmm! Quem vai curar essas suas dúvidas?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MINHA CAMISA BRANCA

Fui passar minha camisa branca, que usei somente duas ou três vezes,  e percebi que ela tem umas manchas. Certamente porque misturei-a na máquina com outras camisas. São manchas  tênues, quase imperceptíveis, mas serão notadas por uma boa observadora — e boas observadoras são todas as mulheres do mundo! Resta saber se vou dispensar a camisa, ou se continuarei usando-a somente à noite, onde manchas não são percebidas. Também posso guardá-la junto àquelas camisas velhas, que uso nas aventuras mateiras.
Você já notou como as camisas são parecidas com a gente? Não por acaso, a maioria das pessoas prefere os tons pardos. Não somente nas camisas, mas também no caráter e no comportamento. Nas camisas e nas almas escuras as manchas não aparecem, mesmo à luz do sol! Podemos cometer um ou outro crimezinho, como roubar na balança e surrupiar o dinheiro da merenda escolar. Todo mundo sabe que fazemos isso, mas e daí? Nossa alma é cinzenta, opaca, e uma manchinha a mais não vai fazer diferença! Uma pessoa de alma branca tem o privilégio de brilhar por um instante, mas um respingo de suco de laranja, um pedaço de tomate que escorrega do prato, e pronto, aquela brancura inaugural já está maculada e perde de uma vez todo o seu esplendor. Resta andar pela penumbra, viver na noite, onde caminham tantos outros com suas manchas grandes e pequenas. Ou passar uma tinta escura. Mas todos saberão que essa alma, como a camisa, foi adulterada, que não é essa a sua natureza. E pior, a cada lavada sairá um bocado daquela tintura, mas ela nunca conseguirá recuperar aquele tom inicial, o branco brilhante, o caráter imaculado, a completa ausência de manchas em sua personalidade.

Mas há outras possibilidades para quem quer passar sem manchas por este mundo. Recomento que troque sua alma sempre que sentir que ela foi maculada. Jogue fora todas as más experiências e experimente-se como pessoa nova. Mude o apelido, mude de cidade, conheça novos amigos, esqueça os velhos bordões, aproprie-se de novos conhecimentos, jogue fora todos os conceitos. Compre uma nova camisa branca e imaculada...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

ESCOLA CEREBRAL

Nascemos carecas, pelados e ignorantes, diz a sabedoria popular. Cada vez que uma criança vem à luz, deve fazer um novo reconhecimento do universo, uma nova constatação das possibilidades humanas. Seria ótimo se o conhecimento passasse de pai para filho através do sangue, dos genes! Não precisaríamos sofrer todas aquelas dores do aprendizado. Nasceríamos cada vez mais preparados para usufruir as graças da natureza, da cultura e da Ciência.
A escola está aí para facilitar esse processo, mas as coisas não estão funcionando também ali, no centro repassador de conhecimentos. Como qualquer outra instituição, a escola começa acreditando numa idéia, e depois apresenta uma tremenda dificuldade para livrar-se dela, ou para estendê-la ao alcance de outras idéias mais elaboradas. A escola ocidental trabalha há séculos na firme convicção de que o único aprendizado possível ocorre no cérebro.
Apesar de toda a retórica em torno da necessidade de praticar-se a interdisciplinariedade, ou mais, a transdisciplinariedade, palavras que enchem a boca dos acadêmicos, os nossos estudiosos parecem ignorar que a criatura humana realiza-se em muitas outras disciplinas além das escolares, ou que a estrutura humana é muito mais complexa do que essa lógica simplista em que está baseada a cultura européia. A natureza humana é feita de corpo, mente e sonhos. E mais algumas coisas que estamos para descobrir num milênio próximo.
A maior dificuldade dos professores em sala de aula é convencer os alunos de que a substância intelectual que tentam lhes enfiar na cabeça é melhor que o sorvete, o beijo, o perfume, a música, a paisagem, o jogo virtual. O conhecimento lógico, no qual nos baseamos desde Sócrates, costuma ser árido, salgado, desagradável. É natural que o jovem recuse, pois quer o melhor para si. Ele quer o doce que encontra nas relações com os colegas, não o salgado, e muito menos o azedo das fórmulas científicas!
A opção pelo cérebro acontece devido à sua qualidade de distinção, que dá aos homens o poder sobre as outras criaturas. Se é o intelecto que destaca o homem, concentremo-nos nele! Mas a partir dessa prática, nossos sentidos corporais estão tornando-se cada vez mais atrofiados. Ilude-se quem pensa que os estudantes de hoje só pensam “prazer, prazer”! O prazer que eles estão fruindo é extremamente conceitual, intelectualizado. Poucos descem os degraus da civilização para colher os frutos selvagens, as verdadeiras delícias, a torta da maçã de Eva!
Quando se trata do corpo, a escola sabe instruir os alunos a fazer ginástica para aprimorar os músculos. Preferimos esquecer que todo conhecimento, antes de chegar ao caldeirão cerebral, passa pelos sentidos físicos. Isto é um conhecimento tão antigo quanto a nossa civilização, mas qual escola tem-se empenhado em ajudar os garotos a reconhecer, a desvendar e a promover sua sensibilidade corporal? No máximo, fala-se da estrutura das papilas gustativas, da fisiologia dos olhos, dos labirintos auditivos. Mas onde está o professor que ensina ao aluno a maravilha do olhar? Qual mestre leva para a sala uma vitrola ou micro system para escutar Mozart ou Rolling Stones?
Limitamos nossos sentidos ao que eles nos dão cotidianamente. Ouvimos distraidamente uma música no rádio, ou passamos o dia “jogando conversa fora”. Sentimos o perfume de um jardim distante e sequer tentamos descobrir qual flor o emana. Deixamos a cargo de uma violenta publicidade decidir qual produto do boticário será mais agradável ao cérebro do parceiro do sexo oposto. Mas a disciplina do olfato, onde está? Os meninos aprendem que nariz e cérebro em conjunto decifram a imensa gama de aromas, mas não têm o privilégio de descobrir a impressionante ciência da perfumaria, as misturas dos odores, muito menos a importância do sentido do olfato na fixação da memória.
Não há nada mais nefasto à saúde humana (corporal, mental e espiritual) que a supressão da liberdade de pensar e de sentir. Quando a criança está aprendendo a elaborar seus sonhos, a escola vem com uma metralhadora, disparando análise sintática, orbitais logaritmos! Mas quanto desse conhecimento utilizamos fora da sala de aula? Fico imaginando que espécie de homem foi capaz de criar a regra que diferencia um hiato de um ditongo!
Para a escola, o ser humano é feito de um cérebro vivo e um corpo morto. Quando se fala de educação sexual, toma-se o cuidado de explicar aos pequenos os nomes científicos dos genitais — já que os apelidos desses órgãos, como os garotos os conhecem cotidianamente, é besteira, para não dizer pecado (e lá vem novamente a Igreja para estragar tudo). Também se fala sobre a prevenção de doenças, as funções reprodutoras, mas ninguém comenta ou discute com a gurizada o prazer — ou o desprazer — do ato sexual. Qual revolucionário mestre um dia terá a coragem de pronunciar o verbo gozar em sala de aula? Mas ele teria de se ver com a diretoria, então, é melhor que fique quieto. A diretoria só aprova se falar de sofrimento, pois está previsto no Livro Sagrado.
Há muito tempo sabemos que a função sexual, quando reprimida, leva a grandes desastres pessoais. E ninguém ignora que pessoas de doze anos em diante estão muito mais interessadas nos lábios, nos cabelos e nas pernas da(o)s colegas que na resolução dos enigmas matemáticos. A verdade está aí, diante dos nossos olhos, mas preferimos escondê-la sob o manto do pudor e a religiosidade.
Apesar dos corpos à mostra, da imensidão de seios, bundas e outras maravilhas que podemos encontrar num simples abrir de windows, nossos tabus crescem mais do que repolhos. Preocupada com o inevitável pendor humano a extremar-se nesse campo onde se mistura o prazer, a dor, o desespero e até a morte, a sociedade organizada legou às escolas a responsabilidade de explicar aos jovens como funciona, naquelas tediosas aulas de educação sexual — as quais, se não me engano, foram coerentemente devolvidas à gaveta de projetos na primeira oportunidade.

Não há nada mais inútil numa escola que professores estressados, tentando vencer o currículo programático ditado pelo governo. Grande parte desses profissionais seriam corretamente substituídos por psicólogos capazes de ter com os alunos uma conversa franca sobre suas carências e seus desejos mais profundos, aquilo que realmente importa para pessoas que têm entre doze e dezoito anos. Alguns outros profissionais, versados em Ciências, poderiam ser utilizados, não para repassar aquelas fórmulas e teorias que os alunos esquecem tão logo abandonam a sala, mas para mostrar a beleza e o mistério manifestado nos mínimos fenômenos naturais, como o desenvolvimento de uma semente e a explosão de uma estrela.
Transformamos em banalidades as maravilhas que ocorrem debaixo de nossos narizes e a escola confirma: as experiências adquiridas pelos alunos fora dos muros da instituição não possuem qualquer valor, pois não podem ser enquadradas em fórmulas e não estão incluídas no currículo programático. Uma semente de feijão, fosca, marrom e sem graça, escondida na terra, converter-se numa inflorescência espontânea, colorida e vibrante, pede algo mais que uma mera explicação de como se reproduzem as dicotiledôneas. Mas qual professor fala da poesia desse fenômeno extraordinário? Um corpo de tetas, brotado de outros corpos, assumindo individualidade e caminhando-se para saciar os estímulos provocados por outros corpos, é muito mais do que explicam os livros de fisiologia médica.
Escolas que pretendam formar boas consciências devem atentar para o que destaca um cidadão de fato de um robô. A matemática, a química e a física não criaram pessoas melhores. Proporcionam conforto material, mas atulharam nossas mentes com imagens febris e ruídos ensurdecedores.

As grandes vítimas das nossas omissões, como sempre, são os mais fracos, os jovens. E mais recentemente, as crianças, que também sentem o bombardeio. Não conversamos de verdade com eles, porque perdemos o contato. O tecido social torna-se cada vez mais amarrado nos velhos dogmas, mostrando rupturas aparentes para satisfazer os mais inquietos, mas tramando nas profundezas contra qualquer manifestação de luminosidade fora dos arquétipos do mercado. A leitura espontânea, a percepção poética, a descoberta do maravilhoso nas coisas simples, têm feito equilibrar o gráfico da nossa humanidade, enquanto o programa escolar o empurra para baixo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

SHOW E FRUSTRAÇÃO

A Ciência, como a Religião, é pródiga na produção de shows. Cada vez que descobre uma nova característica da matéria o homem se põe a explorá-la e termina por criar mais um espetáculo. A platéia vê nessas demonstrações de conhecimento um poder extraordinário — pelo menos nos primeiros instantes, enquanto as luzes do novo número não são ofuscadas por outras. Mas no decorrer das décadas, com um volume de experiências cada vez mais notáveis, o homem vem constatando que apesar das possibilidades infinitas de criação, o seu nível de satisfação já está se limitando pelas bordas. Ele já não se satisfaz com as aventuras terrenas, quer avançar para além da órbita do Sol. Mas o ciclo da vida do homem foi previsto para ocorrer na Terra, e parece improvável que ele saia deste planeta para expandir suas fronteiras. E mesmo que alcance Marte, Vênus ou outro sistema solar, terá expandido seu nível de satisfação?
O infinito mora em nós, mas Ciência já mostrou que não sabe como atingi-lo. Em algum momento pegamos a estrada errada e demos com o muro. Apesar de todos os espetáculos, nossas criações são pífias, não nos atingem mais no âmago, não produzem o gozo do ser. Observemos uma imagem holográfica, num desses shows em que uma pessoa filmada em Tóquio parece materializar-se instantaneamente num anfiteatro de Londres. Levamos milênios para criar esse truque, e agora? Há um instante de estupefação, a platéia delira e aplaude, mas depois vem o tédio. Devemos acreditar que é assim que prosseguiremos? De show em show, até o limite de nossos nervos?! Ou há na escrita de nossos genes uma possibilidade maior, uma felicidade real e duradoura?

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

SABOR E FORMA

Quando os 50 anos caem sobre a nossa cabeça feito tijolos de uma construção e percebemos que ainda estamos vivos, não há mais motivos para preservar as papas na língua. Tem uns assuntos que eu queria discutir aqui, mas eram espinhosos, e eu temia ferir sensibilidades. Entretanto, como vejo tanta gente dizendo coisas sem fundamento, as minhas certamente não farão transbordar o cálice das tolices mundanas.
O que mais vejo na internet são homens falando de carros, pescarias e caçadas, e mulheres falando de emagrecimento, boa forma, academia, ginástica, salão, cintura, cabelos, botas, batons, chinelos e blusas. Raramente vi pessoas falando do sabor que são capazes de transmitir e de conceder. Conhecem milimetricamente as linhas da sua silhueta, mas parecem não saber nada sobre o gosto do seu beijo, a doçura ou a acidez da sua pele, o cheiro dos seus cabelos. E outras tantas coisas que ainda não se fala nas páginas de um site familiar.
Nunca fui o conquistador que gostaria de ser. Eu nunca soube fazer a coisa certa para me aproximar, e muito menos dizer a coisa certa para encantar uma mulher. Quando atei relacionamentos foi porque elas, por motivos que ignoro, chegaram perto, insinuaram-se e me encantaram. E elas me mostraram um fato surpreendente, que nunca vi em nenhum livro e em nenhuma revista feminina: nem sempre as mulheres com os corpos mais bem desenhados são as mais saborosas. Pelo contrário, tem muita gata malhada por aí com aroma de desodorante Avon. Mulheres esguias que não sabem mexer com a cintura. Deusas da beleza sem iniciativa. Misses cujos beijos são frios, cujos abraços não confortam. Belas que não sabem falar de outra coisa além de novela e Big Brother. Enquanto isso, algumas discretas e esquecidas garotas, cujos corpos certamente não passariam sequer na prévia para a Miss do Bairro, escondem sabores inebriantes, têm mãos delicadíssimas, sabem aconchegar um homem num abraço caloroso, recitam poesia enquanto fazem amor.
É claro que também encontramos essas qualidades raras naquela linda mulher que passa pela rua todo fim de tarde, e é bem fácil perceber que ela é densa quando mostra quanto maduro é o seu olhar!
As mulheres deveriam gastar metade do seu tempo lendo livros, em vez de revistas e internet. Certamente teriam muito mais a dizer aos seus homens, e a fazer com eles. E eles, muito mais motivos para querer ficar junto com elas.

O mundo é estranho, meus amigos! Estranho e fascinante!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A ESCURIDÃO INTERESSA A QUEM?

Quanto menos informação, melhor. Quanto menos o povo souber, melhor. Eles sempre agem na escuridão, pois a verdade não lhes interessa. A verdade interessa ao povo, mas o que é o povo, senão um empecilho aos planos do milionário faturamento?
Quanto uma empresa desconhecida vem a Prudentópolis com o propósito de cimentar o Rio dos Patos e diz que vai criar 6 mil empregos, isso é escuridão. Nem mesmo a Itaipu Binacional tem tantos empregos! Basta ver a usina do Rickli. Tem dois empregos lá. Um do técnico, outro do funcionário que corta a grama, mais nada! Estou errado, ou dizer que vão criar 6 mil empregos é desinformação, é pilantragem? Dizem que vão criar um museu ao lado das novas represas. Para qual público? Dizem que turistas virão de cidades distantes para conhecer as represas. Que será construída uma escola de informática próximo às represas! E outros grandes milagres, como, por exemplo: a água que sairá das turbinas será mais limpa que a que corre pelo leito do rio! Como será isso? Ao passar pelas turbinas a usina jogará detergente na água? Quantas maravilhas!
No grandioso estudo científico que fizeram e divulgaram, os cientistas contratados por essa empresa constataram que não tem sinais de agrotóxicos no Rio dos Patos! O rio passa por mais de 40 Km de lavouras de soja e fumo e não tem agrotóxicos?!?!?! Isso tudo é escuridão, é querer esconder a verdade para tirar proveito de um dos nossos mais belos recantos naturais, o cânion do Rio dos Patos. É um local pouco conhecido e inexplorado, mas nem por isso devemos abandoná-lo aos cuidados dessas pessoas. É um local paradisíaco, um verdadeiro santuário, que tem em seus paredões mais de 7 cachoeiras com alturas que variam entre 50 e 100 metros. Se bem trabalhado, com a construção de trilhas ligando as cachoeiras, o cânion do Rio dos Patos sozinho pode alavancar o turismo em Prudentópolis. Se deixarmos construir as barragens, todo o cenário natural será maculado e não causará interesse a nenhum turista.
O proponente diz que serão investidos R$ 75 milhões no projeto das usinas. Ele é dono de um posto de gasolina. De onde vai tirar todos esses milhões? Pressionado, confessou que nunca construiu usina nenhuma. Quer usar Prudentópolis como cobaia para seus investimentos, e para isso vem com a mentira de que vai criar 6 mil empregos!
Chega de escuridão, chega de silêncio. Precisamos gritar contra todas essas mentiras! Mas a prefeitura não se manifesta. Os vereadores se calam! Quem vai se levantar e lutar por este município?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O CÍRCULO DO PODER E A MORTE DOS CONCEITOS

Quando me restarem somente os ossos, 
e uma suposta consciência vagante por esses milharais, 
sobreviverão as formas exuberantes 
das frutas que me compuseram. 

Apesar de toda a correria em busca de produtos que satisfaçam a esta ou àquela fantasia de consumo, precisamos atentar para o verdadeiro objeto de procura dos seres humanos, em qualquer época, em qualquer civilização: a identidade pessoal. Estamos sempre querendo expressar o que somos, seja pelas nossas obras, seja pelas dos outros. 
Numa festa de aniversário há sempre um falador tentado mostrar a maravilha que ele é, com suas próprias palavras ou com expressões emprestadas de revistas e novelas. Uma dona de casa pode fazer de conta que tudo que quer é ver os filhos crescerem com saúde, e que o marido esteja sempre por perto. Mas se a deixarmos fazer o que realmente quer, certamente buscará experiências através das quais possa expressar o que ela é.
Desejamos possuir um caro vaso cerâmico, ricamente trabalhado por antigas civilizações. Isso talvez possa parecer um capricho burguês, mas o consumidor desse vaso está apenas buscando mostrar a si mesmo, ou a outrem, a sua identidade com a sabedoria milenar contida nesse objeto. Ou apenas está extasiado com aquela beleza, que em última análise reflete um extrato de beleza do observador, e que em alguns instantes o identifica como tal: um belo ser. Se o milionário adquire um Renoir, talvez queira mostrar ao mundo sua capacidade aquisitiva. Mas nenhum elogio de seus pares será tão compensador quanto ter em sua sala uma fração do espírito de um gênio da pintura, que de alguma forma estaria impregnando a identidade de seu proprietário atual.
A procura de identidade torna-se cada vez mais frenética, apressada e perigosa. Como os cães que farejam a fêmea no cio e não medem os perigos que a cercam, os buscadores de identidade raramente percebem as armadilhas em seu caminho.
Em cada peça publicitária há um apelo à identidade do provável consumidor. Os instrumentos de mídia põem-nos cada vez mais parecidos com algum modelo de pai, mãe, amante, milionário, esportista, artista, rebelde, inteligente, arrojado, independente, etc. Moderno é expressar o “ser” dentro dos padrões criados em algum escritório de publicidade de Nova York ou de São Paulo. Se você não usa celular, se não tem página no Facebook, se não toma uma atitude “agressiva” perante o mercado “cada vez mais competitivo”, se não tem cartão de crédito, se não usa aquelas expressões americanas que nos tornam tão chiques e sofisticados, você está fora do cenário. Por outro lado, estará livre para montar o seu próprio circo, tocar a sua própria música, criar os seus próprios conceit... não, por favor, não crie conceitos! É a palavra mais batida e surrada pela mídia. Como “qualidade de vida” — expressão permanente no bafo dos bons e dos maus políticos — “conceito” também é algo que não significa absolutamente nada.
Aqui por perto ouço muita gente falando em desgraças e catástrofes — apesar da magia dos celulares, da TV de plasma, dos conceitos e do design! Meus amigos intelectuais, vencidos pela inércia, concluíram que todas as revoluções são inúteis, porque o Sol há de se apagar e, com ele, todos os traços da nossa civilização. Pensam na morte e só falam cinzas. Mas continuo respirando o céu azul e dizendo “arco-íris”, “esperança”, “generosidade”. E mesmo que eu não queira e não aceite uma vida mais longa que as cinco ou seis décadas a mim concedidas, pressinto nos ares as brisas da ressurreição.
Se olharmos a rosa, que rompe da escuridão para dar-se nuns poucos dias, tão plena, tão certa, para depois ser esquecida pela eternidade... 
A humanidade que sou, e que somos, um dia sairá destas profundezas, florescerá, e o Sol que se apague, que o mundo nos esqueça... que tenhamos aberto a possibilidade de um mundo perfeito é maior que todas as negras premonições sobre a minha dor e a minha morte.
Romper o “círculo do poder”, como dizia Dom Juan de Castañeda, talvez seja a lição mais poderosa que qualquer indivíduo pode experimentar. Colocar-se em posição que possibilite essa ruptura é a atitude temerária. Mas chegar a esse ponto significa ter passado por uma série de circunstâncias reveladoras, um caminho de buscas que levam a uma explosão de luzes e dor. A dor de trocar de pele, ou de “limpar-se das tintas com que nos pintaram” (F. Pessoa) para descobrir a madeira de que somos feitos. Muitos letrados, mestres e até doutores jamais virão a saber o que seja essa “morte da cultura” para a descoberta da humanidade real. Permanecem citando autores renomados à beira da maçã, como a bela virgem que não teve a coragem de dar o primeiro bocado e abandonar o paraíso da ignorância.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

OS MILAGRES DO USINEIRO

Em reunião nesta manhã, na Câmara de Prudentópolis, no desespero de tentar mostrar o quanto sua empresa Enerbios é magnânima, muito interessada no progresso dese município e no bem-estar da nossa gente, o usineiro prometeu construir um museu junto às 3 usinas que pretende construir no Rio dos Patos, logo abaixo do salto Rio Branco! Você acredita nisso? Disse que as usinas vão gerar mais de 5 mil empregos, sendo uns 700 diretos. Ora, na usina do Rickli, no Manduri, tem dois (2) funcionários: um que corta o capim, outro que cuida das máquinas. Por que as usinas da Enerbios teriam trezentas vezes mais funcionários que a do Rickli? O usineiro admitiu que é dono de um posto de gasolina em Curitiba e que a Enerbios nunca construiu empresa nenhuma. Isto é, quer usar Prudentópolis como cobaia! Quando perguntei quanto a empresa vai lucrar com o empreendimento, o usineiro se esquivou e não respondeu. No "sério" Estudo de Impacto Ambiental, produzido, segundo ele, em parceria com a Universidade Federal do Paraná, constatou-se que o Rio dos Patos não tem contaminação por agrotóxicos. Que estudo sériíssimo, senhor usineiro! Todos os prudentopolitanos sabem que nosso rio atravessa mais de 40 Km de lavouras de soja e fumo, e que os carás já estão nascendo com orelhas e os bagres sem bigodes por causa do veneno. Nosso povo precisa rebater esses discursos furados, pois isso tem a ver com o futuro do nosso município. As usinas propostas pela Enerbios vão beneficiar meia dúzia de pessoas, mas o Rio dos Patos é dos prudentopolitanos e de toda a Nação Brasileira. Não podemos admitir que esses caras venham aqui e façam como bem entendem, destruindo nosso patrimônio natural em cima do nosso silêncio! Precisamos, urgente, fazer um estudo amplo e realmente científico para definir o que queremos para o nosso município! Essas usinas vêm na contramão do trabalho que vem sendo feito há mais de vinte anos para a divulgação de Prudentópolis como município turístico. Esse setor ainda caminha devagar, mas não é por isso que devemos entregar nosso outro em troca de brinquedinhos de lata!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A MORTE É CONSELHEIRA

O artigo intitulava-se “A morte é conselheira”, e tratava de algumas variações sobre o tema específico da morte para uma série de reflexões sobre a vida e sua evolução. O editor do jornal fez uma escolha adequada: publicou o texto integral, porém mudou o título — que eu havia emprestado de um capítulo do livro “Viagem a Ixtlan”, de Castañeda. Concordei, pois a publicação de um título desses, na segunda página de um jornal de uma cidade do interior, poderia causar incômodo.
Não se fale da morte, portanto, embora ela esteja viva e presente em quase todas as conversas entre pessoas com mais de quarenta anos, em todos os dramas cinematográficos americanos, em todos os noticiários e em todos os discursos dos pastores de plantão. Mas ninguém parece interessado em conversar sobre o milagre da morte, como o chamavam os personagens daquele belo filme “A estranha família de Antonia”.
Por enquanto, até onde sabemos eu e Vinícius de Moraes, nenhum ser humano foi capaz de fugir dela — com algumas exceções, sobre as quais os pastores religiosos estão mais qualificados do que eu para falar.
O meu sossego veio aos 25 anos, quando li “Todos os Homens São Mortais”, escrito em 1946 pela francesa Simone de Beauvoir. Ela mostra que a imortalidade é um fardo demasiado árduo para se carregar além do tempo que foi dado a uma vida natural. Morrer não é apenas um fato inevitável, é um dom e uma recompensa.
O protagonista, Conde Fosca, era um guerreiro no auge de sua juventude. Vivia na Itália, lá pelos anos 1.300. Numa ocasião encontrou uma garrafa, destampou-a, tomou o líquido que ela continha e, sem maiores explicações da autora, tornou-se imortal. Daquele momento em diante todos os ferimentos que Fosca recebia nas batalhas, por mais profundos que fossem, logo cicatrizavam. Quando lhe cortavam o pescoço ou feriam seu coração, Conde Fosca chegava a perder os sentidos, mas logo estava em pé. No início ficou espantado com esses acontecimentos incríveis. Mas logo tornou-se confiante, lançando-se aos maiores perigos para garantir a vitória de seus exércitos. Num intervalo entre as batalhas, apaixonou-se por uma mulher e constituiu família. Depois de alguns anos, viu sua esposa envelhecer e morrer. E o mesmo aconteceu com seus filhos e todos os seus amigos. Fosca peregrinou pela Europa derrubando ditaduras, e novas pessoas entraram em sua vida. Apaixonou-se outras vezes, formou novas famílias. Mas os anos passavam, e o guerreiro permanecia com a pele viva de sua juventude, seus braços e pernas não perdiam a vitalidade. Porém as esposas, filhos e amigos, vendo-se envelhecer inexoravelmente enquanto ele permanecia jovem, ficavam tristes, infelizes e, por fim, desesperados. Por que somente Fosca podia continuar vivo? Por que somente ele podia vencer o tempo? Por que Deus não lhes dava a oportunidade de continuar vivos e fortes? Apesar de todas as suas queixas, os anos corriam, e a vida se evadia daqueles corpos. Para Fosca eram cenas cada vez mais insuportáveis. Tornou-se empresário de sucesso, mas sentia-se infeliz com o desaparecimento contínuo e inevitável de seus afetos. Pensando em dar um fim à própria vida, golpeou-se com a espada, mas não morreu. Alguns anos depois deu-se um tiro na cabeça, continuou vivo, pulou sobre um precipício, mas no instante seguinte estava novamente inteiro. No final do século XIX Conde Fosca deitou-se no chão de uma floresta, decidido a nunca mais se mover dali. A terra haveria de absorvê-lo, como absorvia a todas as coisas vivas. Dormiu, mas acordou 60 anos depois, coberto de terra e folhas. Levantou-se, chacoalhou-se e seguiu para enfrentar mais um dia da sua imortalidade. Segundo Beauvoir, ele ainda habita entre nós!
Você pode imaginar um homem mais infeliz do que esse? E que destino atroz! Não poder morrer, não conseguir descansar jamais!
Que não se enganem os homens, quando pensam na morte: não há nada de errado com ela. Como dizia o monge francês Teilhard de Chardin, “se a morte só tivesse aspectos negativos, seria um fenômeno impraticável”


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

FALTA DE FÉ

A dificuldade maior na conversa com certos religiosos está no fato de acreditarem que não são nada sem a sua fé. Com este conceito estabeleceram os limites até onde podem ir, sem resvalar para o fosso do inferno. Visitar prostitutas, trair a esposa, falar mal do marido, amaldiçoar o vizinho, roubar na balança, corromper o prefeito, roubar comida de crianças desnutridas através de licitações fraudulentas, tudo isso está dentro dos limites admissíveis, nos quais o fiel sabe que, por um conveniente arrependimento ao fim da jornada poderá regatear um ingresso aos céus. Mas admitir sua falta de fé, jamais. O rito da palavra, afirmada em altos brados diante de outros fiéis, abre os caminhos da sua santidade.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

PROVIDÊNCIAS

Deus estava de saco cheio das nossas vaidades e convocou sua legião de anjos para acabar com a bagunça. Eles desceram das nuvens com ordens expressas:

1 – A partir de agora as mulheres deverão mostrar seus rostos verdadeiros, mesmo nas ocasiões mais opulentas, em que preferem apresentar-se com uma grossa camada de pancaque no rosto, cílios postiços e cabelos alisados. Parágrafo único: quero cabelos naturais, sejam eles lisos, encaracolados ou enrolados. Fiz belos todos os cabelos. A indústria da moda disse que são feios para vender chapinha.
2 – Os homens devem abandonar definitivamente a mania de contar vantagem sobre tudo o que são e o que fazem e de destruir com gozações o sucesso alheio.
3 – Os representantes de Deus na Terra terão de andar como andou Jesus Cristo, em trajes simples, com sandálias de couro, alimentando-se de aldeia em aldeia com as dádivas oferecidas a cada dia pelos fiéis.

Não deu certo.

1 – As mulheres estavam numa onda violenta de experimentações, sentindo-se superpoderosas com a maquinaria gigantesca proporcionada pelas novas tecnologias. TV, celular, notebook, corpão, cartão, salão, carrão! Quando os anjos apareceram elas perguntaram se eles usavam sunga ou samba canção. Desestabilizados, os querubins retornaram aos céus para pedir novas instruções sobre os procedimentos.
2 – Os homens olharam os anjos com um misto de descrédito e horror. Como eram seres delicados, vestidos de túnicas coloridas em tons claros, foram considerados gays e apedrejados.
3 – Diante da contingência de abandonar seus luxuosos palacetes, cancelar banquetes, viagens internacionais e suntuosas homenagens públicas, os religiosos acharam conveniente dizer ao povo que os anjos eram mensageiros do Diabo.


E tudo ficou como estava. Deus continua lá no céu, pensando o que fazer com seus filhos adolescentes.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

NOMES

No mundo moderno-e-ainda-machista a flor é um objeto essencialmente feminino. Homem que fala em flor corre perigo. Deve ter passado pro lado de lá! Como sabemos que isso é conversa de criança mal crescida, falemos das flores à vontade.
Estive hoje à tarde olhando para uma delas. Colhi uma muda num terreno baldio meses atrás, plantei e agora ela está soltando umas pétalas estranhas, bonitas, cor salmão. Perguntei-me qual seria o nome dessa planta, e logo me dei conta da tolice. Por que ela teria de ter um nome? Porque ela precisa dele, ou porque as pessoas têm essa compulsão de botar nome em toda novidade que descobrem sobre a superfície da Terra? A rosa não sabe que é rosa, o canário não sabe que é canário, a montanha tampouco sabe que é montanha. Só os os homens sabem. Mas o que é que os homens sabem? Não sabem nem mesmo porque saem feito alucinados nomeando coisas que nunca pediram para ter um nome...