sábado, 8 de fevereiro de 2014

A CASA DA FELICIDADE

A pequena Mayara seguia pelo caminho da mata, acompanhada de sua tia Jussara. Respirava fundo, a intervalos, como querendo sorver a perfumaria densa e densa que evolava das folhas secas. O aroma misturava-se ao dos primeiros brotos da primavera, saindo verde claro das cerejeiras e marrom-avermelhado das jabuticabeiras.
— O que você leva neste pacotinho, Mayara? — perguntou a tia.
— O Vô Guairacá tinha uma estátua de barro lá na cidade — respondeu a menina, fingindo não ouvir a pergunta. — Os brancos fizeram a estátua sabendo que ela ia se desmanchar.
— Mas quando ele fugiu e retornou à aldeia, todos nós festejamos.
— Ele queria se tornar um homem branco?
— Não. O seu avô sempre foi um sábio. Procurou os brancos para fazer um acordo sobre as nossas terras invadidas. Depois ele ficou sabendo o que os brancos fazem com os acordos.
— A Vó Jurema disse que ele tinha uma protetora.
— Sim, é verdade. Havia uma mulher muito sábia, que veio de uma terra distante. Mas essa era única no meio daquela gente gananciosa. Quando a estátua começou a se desmanchar, ela saiu gritando, chamando o seu avô, mas ele desapareceu no meio da mata. Depois voltou envergonhado à aldeia, mas o importante é que venceu a vergonha e voltou.
— Eu queria ter conhecido o avô. Eu sei que ele me ajudaria.
— Ele morreu de tristeza.
— A avó disse que mesmo na tristeza ele nunca perdeu a altivez.
— Isso também é verdade. Mas para que você precisaria de ajuda, Mayara?
— Por uma causa.
— Entendo. Vai me dizer o que leva aí no seu pacote?
— Eu segui os conselhos da avó. Juntei todas as minhas virtudes pra oferecer à Felicidade.
— Elas estão aí no pacote?
— Sim.
— E por que estou vendo no seu semblante aquela tristeza do seu avô?
— O avô sabia o que era justo. Ele queria a Justiça, não queria uma estátua de barro.
— Sim, mas a Justiça não é as mãos que amassam o barro. A Justiça é o barro, e o barro está à mercê das pessoas.
— E a Felicidade, o que é?
— Ninguém sabe. Dizem que a gente só sabe quando ela se afasta de nós. A avó conta que a Felicidade nasceu com a nossa tribo. Ela caminhava faceira pela floresta e conversava com todos. Mas depois chegaram os brancos com aquela tristeza profunda, e a Felicidade foi se desviando mais para dentro da mata. Dizem que no começo ela aparecia nas festas, mas depois o nosso povo abandonou as festas e ela não apareceu mais por aqui.
— Talvez ela tenha aquela altivez do avô.
Jussara riu-se, em silêncio. Dobrou os braços nas costas e continuou acompanhando os passinhos de Mayara. O caminho da floresta abriu-se num campo de vassoureiras, com suas franjas amarelas e brancas estremecidas por mamangavas e pintassilgos. Na colina próxima descortinava-se a aldeia, tomada pela névoa ocre do entardecer. As poucas nuvens no alto da Serra da Esperança começavam a pintar-se de laranja.
— Você gostaria de conhecê-la? — tornou Jussara.
— A avó sempre me fala dela. Fiquei esperando que aparecesse na aldeia, mas nunca tive a sorte. Dizem que ela é amiga das crianças, mas então, por que nunca aparece?
— Um dia desses posso mostrar onde ela mora.
— A avó me disse onde ela mora. Você já foi lá?
— Sim, quando eu tinha quinze anos. Mas a casa estava vazia, e tomei aquilo por um sinal. Acredito que vou encontrá-la, mas só quando for a vontade dela.
— É assim, então, somente quando ela quer?
— A Felicidade não poderia receber a todos em sua casa. Ela prefere sair em busca dos que a mereçam.
— E você sabe de alguém aqui da aldeia que ela tenha visitado?
— A avó é uma dessas pessoas.
— A Vó Jurema? Então é por isso que ela está sempre alegre! Às vezes penso que a avó é a nossa única fonte de alegria. E quando foi que ela recebeu a visita da Felicidade?
— No dia que o avô morreu. Ela nem teve tempo de ficar triste. Muitos até estranharam.
— E o que a Felicidade disse pra ela?
— Que ela visse o dia passar.
— Só isso?
— A Felicidade não é de muitas palavras.
— Ela estava em casa hoje. Eu vi a fumaça do petinguá. E vinha um cheiro de potiúna cozido.
— Está me dizendo que você esteve lá?
— Eu levei o meu pacote de virtudes e chamei por ela. A porta estava aberta, mas ela não veio me receber.
— Não pensou que, se a porta estava aberta, era um oferecimento?
Os olhos de Mayara se abriram e brilharam ao fogo do crepúsculo.
— Eu vou lá, tia — disse, voltando-se sobre suas pegadas e retomando o caminho.
— É tarde, Mayara — alertou a tia, mas a menina apressava o passo na direção da mata. — Vai anoitecer e o caminho fica perigoso.
— Hoje não me ensine sobre os perigos, tia. Se ela está com a porta aberta, o que devo temer? Venha, venha, venha junto comigo, deve caber pelo menos duas pessoas na casa da Felicidade...


Um comentário:

Susana Stähelin Stähelin disse...

Seus contos são uma delícia! Parabéns pela forma simples de expor coisas complexas!