sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

MINHA CAMISA BRANCA

Fui passar minha camisa branca, que usei somente duas ou três vezes,  e percebi que ela tem umas manchas. Certamente porque misturei-a na máquina com outras camisas. São manchas  tênues, quase imperceptíveis, mas serão notadas por uma boa observadora — e boas observadoras são todas as mulheres do mundo! Resta saber se vou dispensar a camisa, ou se continuarei usando-a somente à noite, onde manchas não são percebidas. Também posso guardá-la junto àquelas camisas velhas, que uso nas aventuras mateiras.
Você já notou como as camisas são parecidas com a gente? Não por acaso, a maioria das pessoas prefere os tons pardos. Não somente nas camisas, mas também no caráter e no comportamento. Nas camisas e nas almas escuras as manchas não aparecem, mesmo à luz do sol! Podemos cometer um ou outro crimezinho, como roubar na balança e surrupiar o dinheiro da merenda escolar. Todo mundo sabe que fazemos isso, mas e daí? Nossa alma é cinzenta, opaca, e uma manchinha a mais não vai fazer diferença! Uma pessoa de alma branca tem o privilégio de brilhar por um instante, mas um respingo de suco de laranja, um pedaço de tomate que escorrega do prato, e pronto, aquela brancura inaugural já está maculada e perde de uma vez todo o seu esplendor. Resta andar pela penumbra, viver na noite, onde caminham tantos outros com suas manchas grandes e pequenas. Ou passar uma tinta escura. Mas todos saberão que essa alma, como a camisa, foi adulterada, que não é essa a sua natureza. E pior, a cada lavada sairá um bocado daquela tintura, mas ela nunca conseguirá recuperar aquele tom inicial, o branco brilhante, o caráter imaculado, a completa ausência de manchas em sua personalidade.

Mas há outras possibilidades para quem quer passar sem manchas por este mundo. Recomento que troque sua alma sempre que sentir que ela foi maculada. Jogue fora todas as más experiências e experimente-se como pessoa nova. Mude o apelido, mude de cidade, conheça novos amigos, esqueça os velhos bordões, aproprie-se de novos conhecimentos, jogue fora todos os conceitos. Compre uma nova camisa branca e imaculada...

Um comentário:

Susana Stähelin Stähelin disse...

Como anunciava o velho e bom OMO: "Não há aprendizado sem manchas"