Quem busca nas profundezas haverá de encontrar as pedras preciosas que o riacho arrastou desde sua nascente. Quem busca na superfície encontrará as garrafas vazias.
Mas as coisas profundas também se revelam na superfície. Se me mantiver sempre nas profundezas sentirei falta do oxigênio das coisas fúteis.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
ESFERAS, ESPERAS
Sempre na espera rolando as esferas do relógio, da bola, da roda. A espera da esfera da Lua, da Terra e do Sol. Na borda da esfera esperando o infinito, o todo e a nada. A esfera da uva, do óvulo e do ovo, que de rebelde tomou forma ovalada.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
NAVIOS À DERIVA
Quando escreve sobre a humanidade futura, o cronista acredita que pode beirar as raias do fim do mundo – pelo menos, do mundo terreno, que certamente será extinto uma meia dúzia de anos antes da extinção do universo! Quando me projeto para aquele tempo que a memória ainda não alcança – porque ainda não chegamos lá – tenho uma certa dificuldade em ver as pessoas num estado de harmonia como aparecem em meus sonhos mais otimistas. Talvez por causa de alguns traumas que sofri em períodos de lutas, quando conheci os mais improváveis covardes que viriam compor alguns trechos da minha história. Inclusive eu próprio.
Sim, é triste dizer, mas em conjuntos de cem pessoas quase sempre você encontrará duas ou três pessoas com quem pode realmente contar. As outras podem agradar você, trazer presentes e novidades, porém mal sentem o cheiro de queimado abandonam o navio e não se importam se você vai virar petisco de tubarão. Outras duas ou três talvez queiram trazer uns baldes d’água e contribuir para debelar o fogo, mas diante do perigo ficarão paralisadas, porque, por algum motivo inexplicado, em horas como essa sempre perdem o comando dos próprios músculos.
Além da ignorância e da maldade, os comandantes do fim do mundo terão de combater a covardia daqueles que compõem as suas fileiras. Os antigos generais punham soldados à luta à base de discursos inflamados em favor de uma “pátria livre”. Geralmente, nesses casos, o que realmente levava os bravos aos campos de confronto era a possibilidade de saque das cidades conquistadas. Nas Forças Armadas os recrutas passam por uma lavagem cerebral tamanha que após alguns meses de treinamento brutal tudo que eles querem é seguir para a guerra – segundo me disse um antigo funcionário do Exército. Mais recentemente os soldados têm sido levados à luta à custa de muito dinheiro. Os States recrutam mercenários em vários países do mundo para levar adiante suas colunas mortíferas no Oriente Médio e outros confins.
Nas lutas políticas ou intelectuais o que mantém o esquadrão em pé são os mais variados interesses, e é certo que em determinados momentos, quando o navio começar a adernar, os fracos pularão nos botes salva-vidas. F
Falo de cadeira: houve um momento em que me vi obrigado a deixar meus amigos aos tubarões, acossado por circunstâncias que estavam além das minhas forças. O que aprendi com isso? Que antes de ir à luta preciso combater o mil diabos que se debatem dentro da minha própria cabeça, para não correr o risco de ser o primeiro a perder a esperança e sair correndo de medo do bicho feio!
Sim, é triste dizer, mas em conjuntos de cem pessoas quase sempre você encontrará duas ou três pessoas com quem pode realmente contar. As outras podem agradar você, trazer presentes e novidades, porém mal sentem o cheiro de queimado abandonam o navio e não se importam se você vai virar petisco de tubarão. Outras duas ou três talvez queiram trazer uns baldes d’água e contribuir para debelar o fogo, mas diante do perigo ficarão paralisadas, porque, por algum motivo inexplicado, em horas como essa sempre perdem o comando dos próprios músculos.
Além da ignorância e da maldade, os comandantes do fim do mundo terão de combater a covardia daqueles que compõem as suas fileiras. Os antigos generais punham soldados à luta à base de discursos inflamados em favor de uma “pátria livre”. Geralmente, nesses casos, o que realmente levava os bravos aos campos de confronto era a possibilidade de saque das cidades conquistadas. Nas Forças Armadas os recrutas passam por uma lavagem cerebral tamanha que após alguns meses de treinamento brutal tudo que eles querem é seguir para a guerra – segundo me disse um antigo funcionário do Exército. Mais recentemente os soldados têm sido levados à luta à custa de muito dinheiro. Os States recrutam mercenários em vários países do mundo para levar adiante suas colunas mortíferas no Oriente Médio e outros confins.
Nas lutas políticas ou intelectuais o que mantém o esquadrão em pé são os mais variados interesses, e é certo que em determinados momentos, quando o navio começar a adernar, os fracos pularão nos botes salva-vidas. F
Falo de cadeira: houve um momento em que me vi obrigado a deixar meus amigos aos tubarões, acossado por circunstâncias que estavam além das minhas forças. O que aprendi com isso? Que antes de ir à luta preciso combater o mil diabos que se debatem dentro da minha própria cabeça, para não correr o risco de ser o primeiro a perder a esperança e sair correndo de medo do bicho feio!
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
QUAL É A DROGA?
Ser contra a liberação das drogas faz parte do
papel da boa família cristã. Parabéns aos que lutam pelos seus filhos e contra
os traficantes. Mas nesse caso há outras questões a considerar. Se mantemos a
proibição, a piazada continuará fumando maconha às escondidas da família e se
perdendo pelos becos da periferia em busca de um pacote da droga. E o
narcotráfico agradece. Quem é contra a liberação
precisa entender que no Brasil, como em todo mundo, quem quer droga tem droga,
independentemente do número de apreensões pela polícia. A liberação tiraria o
pé de apoio do narcotráfico, milhares de pessoas deixariam de ser assassinadas
todos os anos. O trabalho mais difícil não está sendo feito pelas famílias que
se arvoram contra a liberação: conversar com os filhos sobre as drogas. Aliás,
poucos pais estão capacitados para conversar com os filhos sobre isso. As
secretarias de Educação e de Saúde deveriam promover cursos para ensinar aos
pais como conversar com os filhos sobre as drogas. Pois é um assunto complicado,
e muito pouca gente está disposta a abrir o debate. Os drogados não são vítimas
das drogas, são vítimas da nossa omissão, ignorância e covardia.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
O PANELÃO E A FEBRE
O melhor das novidades
tecnológicas não são os benefícios inerentes, porém os subjacentes. Elas sempre
produzem reações inusitadas no ser humano, que de súbito vê-se diante de novas possibilidades de comunicação,
de saciedade, de realização.
O conhecimento que o Facebook
tem-me trazido ao longo dos últimos dois ou três anos sobre a natureza humana
equivale ao que obtive nos 45 anos anteriores. Um conhecimento quase sempre
lamentável! A curiosidade natural me faz arrastar a “linha do tempo”, até meio
sem querer, durante um ou dois minutos, então começo a sentir náuseas. Nunca vi
tanta gente dizendo tantas asneiras num espaço tão curto!
Tem alguns que soltam farpas logo
de manhã. Ameaçam, amaldiçoam, previnem-se contra os invejosos, prometem
vingança antes mesmo de serem feridos, falam de pecados e demonstram todo o seu
mal disfarçado preconceito. Há aquele tarado frustrado que posta mulheres nuas
a cada cinco minutos (bem, pelo menos este nos alegra, pois o que há de mais
belo que uma mulher nua?), e há também aquele obsessivo por gente destripada. E
também aquele que encontrou neste local uma fossa para despejar todo o seu
arcabouço de palavras sujas.
Mas ingresso no meio de toda essa
lama há um fator positivo. Devemos considerar que toda crise é uma febre para
produzir a cura. O Facebook é um símbolo da nossa grande crise existencial. É
uma febre, estamos a mais de 40 Graus, temperatura em que se perde a noção e
fala-se e age-se sem pensar. Mas alguma coisa boa deve finalmente sair deste
panelão onde cozinhamos nossos sapos, cobras, aranhas e lagartos.
Louvo desde já aqueles que usam
espaços como esse para trazer as flores recém-abertas e as frutas frescas de
seus pomares. Há muita gente-gente aproveitando este maravilhoso instrumento
chamado internet para arejar o mundo, jogando sua gota d’água limpa no copo
sujo da nossa velha e lamentável história.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
ALIENADOS NA ESCURIDÃO
O rapaz está caído no chão, atordoado com uma pancada. Então chega um outro rapaz, o herói, e chuta o rosto daquele que está caído. Chuta a barriga, o peito e volta a chutar a cabeça daquele que já não pode se defender. O sangue jorra pelo nariz. Ele está desacordado, mas o agressor continua pisando chutando sua cabeça.
Não, eu não estou falando daqueles valentes rapazes que socaram suas vítimas desacordadas na Arena de Joinville no último domingo. Estou falando de um vídeo-game que jovens de 10 ou 12 anos estão jogando numa lan house a duas quadras da minha casa. Eles chutam a cabeça de um rapaz caído e sem defesa, e continuam chutando até desacordá-lo, ou até fender seu crânio para ver o sangue jorrar. Quando saem à rua, à vida real, se der uma briga e um rapaz cair ao chão, o que esses gamers vão fazer? Vão chutar-lhe a cabeça até fazer jorrar sangue. Pois os adultos lhes disseram que assim é a vida! Se foram adultos que criaram os jogos de morte, como os jovens (e as crianças) vão questionar, pensar que pode ser errado bater e matar covardemente um semelhante?
Os filmes de terror nascem nas almas de gente infeliz, criadas lá em Hollywood. Sabem que é um produto que vende, porque as pessoas sentem uma atração irresistível pela morte, pela violência, pelos zumbis, pelo horror. Pessoas bem resolvidas não precisam fazer coisas do gênero para viver. Esses filmes e esses games chegam aos olhos das nossas crianças sem nenhuma triagem das autoridades competentes. Ninguém contesta, ninguém comenta, ninguém reclama, e os nossos rebentos permanecem expostos a essa violência comprada!
Quando jovens chutam a cabeça de seus semelhantes num jogo de futebol como se fossem inimigos, não temos o direito de nos surpreender. Nós somos testemunhas do que está acontecendo, somos coniventes com a destruição dos cérebros dessas jovens pessoas que tão pouco ainda sabem da vida. Lamento!
(Em tempo: O locutor Luis Roberto, da Globo, teve o bom senso de mandar desviar as câmeras da violência em Joinville, sob o pretexto de que eram imagens muito “fortes” para serem apresentadas numa tarde de domingo. Mas outras câmeras continuaram gravando, e todos os jornais da Globo reproduziram as cenas, inclusive as mais fortes, sem qualquer critério de horário. O que aconteceu? O que acontece sempre. A diretoria entendeu que para fazer bombar o ibope vale a pena apresentar a cabeça de um rapaz sendo esmagado. Agora imagine se fosse a cabeça do dono da Globo que estivesse sendo pisada. Ele apresentaria uma cena dessas no Fantástico, e depois novamente no Globo Esporte, e venderia a imagem para todas as TVs do mundo?)
Não, eu não estou falando daqueles valentes rapazes que socaram suas vítimas desacordadas na Arena de Joinville no último domingo. Estou falando de um vídeo-game que jovens de 10 ou 12 anos estão jogando numa lan house a duas quadras da minha casa. Eles chutam a cabeça de um rapaz caído e sem defesa, e continuam chutando até desacordá-lo, ou até fender seu crânio para ver o sangue jorrar. Quando saem à rua, à vida real, se der uma briga e um rapaz cair ao chão, o que esses gamers vão fazer? Vão chutar-lhe a cabeça até fazer jorrar sangue. Pois os adultos lhes disseram que assim é a vida! Se foram adultos que criaram os jogos de morte, como os jovens (e as crianças) vão questionar, pensar que pode ser errado bater e matar covardemente um semelhante?
Os filmes de terror nascem nas almas de gente infeliz, criadas lá em Hollywood. Sabem que é um produto que vende, porque as pessoas sentem uma atração irresistível pela morte, pela violência, pelos zumbis, pelo horror. Pessoas bem resolvidas não precisam fazer coisas do gênero para viver. Esses filmes e esses games chegam aos olhos das nossas crianças sem nenhuma triagem das autoridades competentes. Ninguém contesta, ninguém comenta, ninguém reclama, e os nossos rebentos permanecem expostos a essa violência comprada!
Quando jovens chutam a cabeça de seus semelhantes num jogo de futebol como se fossem inimigos, não temos o direito de nos surpreender. Nós somos testemunhas do que está acontecendo, somos coniventes com a destruição dos cérebros dessas jovens pessoas que tão pouco ainda sabem da vida. Lamento!
(Em tempo: O locutor Luis Roberto, da Globo, teve o bom senso de mandar desviar as câmeras da violência em Joinville, sob o pretexto de que eram imagens muito “fortes” para serem apresentadas numa tarde de domingo. Mas outras câmeras continuaram gravando, e todos os jornais da Globo reproduziram as cenas, inclusive as mais fortes, sem qualquer critério de horário. O que aconteceu? O que acontece sempre. A diretoria entendeu que para fazer bombar o ibope vale a pena apresentar a cabeça de um rapaz sendo esmagado. Agora imagine se fosse a cabeça do dono da Globo que estivesse sendo pisada. Ele apresentaria uma cena dessas no Fantástico, e depois novamente no Globo Esporte, e venderia a imagem para todas as TVs do mundo?)
domingo, 24 de novembro de 2013
HORA DO SHOW
Os espetáculos da Natureza, ou os
criados pelo homem, têm a capacidade de nos proporcionar momentos gloriosos. Os
homens se deixam seduzir pelo espetáculo, como se ele fosse a própria vida. É o
entusiasmo levado ao extremo nos instantes de grandes explosões, shows
pirotécnicos, musicais ou religiosos. Embalado nessa grande ilusão o corpo vibra
e o pensamento se anula. Circunstância propícia para enfiar na cabeça vazia da
platéia as idéias mais mirabolantes e absurdas.
O homem nem sempre consegue perceber
que aquele furor não é um resumo da vida, porém um instante artificialmente
programado para criar euforia. O efeito é semelhante ao de uma droga potente,
que anula o pensamento e faz acreditar que encontra-se num outro mundo, o mundo
do espetáculo, feito de precisão, leveza, magia e beleza.
O melhor apreciador não é aquele que
se deixa dominar por inteiro pela força do espetáculo, e sim aquele que separa
o desejo do êxtase e o poder de reflexão. Há algo inominado dentro dos homens,
talvez um demônio buliçoso que busca a recompensa, a vitória, a glória. Porém a
história ensina que homens embriagados pela glória já fizeram muita besteira.
Quando você aprende a apreciar o espetáculo em toda a sua medida, porém mantém
a mente reflexiva e livre, o show tem sabor redobrado, e no fechar das cortinas
não resta a ressaca.
O show da Natureza é perene, acontece
a todo instante em todo lugar. Basta ver a transformação permanente do céu
acima de nossas cabeças. Mas os espetáculos criados pelo homem também não são
coisa recente. Muito antes dos shows musicais do século 19, ou dos números
teatrais do século 16 e das batalhas sangrentas dos tempos do Coliseu, já se
criavam espetáculos impressionantes. Plutarco conta a façanha dos babilônicos,
que após serem dominados pelo macedônio Alexandre, prepararam para o conquistador
um show extraordinário. “Para fazerem conhecer ao rei a força da nafta e sua
natureza, regaram o caminho que conduzia ao paço; depois, colocando-se na
extremidade do rastro, aproximaram suas tochas do líquido que haviam espalhado.
Era noite fechada. Mal as primeiras gotas pegaram fogo, e a chama, sem
intervalo sensível, comunicou-se à outra extremidade com a rapidez do
pensamento; e a rua pareceu inflamada em toda a sua extensão”.
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